
get drunk and get luost;
Recent Posts
Revirou-se na cama, não conseguia dormir. Não que ele não estivesse acostumado com as camas frias dos hotéis luxuosos que freqüentava, mas aquela noite estava particularmente... vazia.
Não sorria há um bom tempo; eles não se falavam há um bom tempo. Para dizer a verdade, ele sequer pensava naquela mulher desde que chegara à casa do amigo. E quando aquela garota estranha do cabelo azul o lembrara de sua existência, foi como se uma alavanca tivesse sido acionada dentro de seu estômago e berrava a plenos pulmões: "Você está vivendo uma mentira!".
Revirou-se na cama, não conseguia permanecer acordado. O sono pesava em sua pálpebras mas a dor as mantinha abertas. Não, não era dor; ele tinha tudo. Tinha mais do que qualquer um pudesse querer, e ainda assim faltava tudo nele. Passou o Dia dos Namorados em um vôo atrasado com o melhor amigo. Não fumava há horas. Já nem lembrava mais do gosto da nicotina ou do rosto da sua mulher. A vida estava sendo irônica novamente, e aquela caixa incomodava seus olhos como se estivesse coberta de neon.
Ele finalmente se levantou, abraçando a si mesmo. Já era um homem feito, trinta anos na cara e ainda assim continuava um indefeso. Aproximou-se da mesa, com o laptop e seu café pela metade. Pegou a caixa e sorriu; "ela é estranha", pensou. Abriu e admirou os presentes. Eram criativos e de certo ele não esqueceria de nenhum deles, mas olhá-los aumentava ainda mais o peso em suas costas. Ele sentia culpa, arrependimento por algo que ele nem sequer sabia ter feito. Pegou o caderno e segurou o choro, sentia-se deprimente. Correu as folhas até encontrar a parte reservada para ele. Era fria. Não havia desenhos nem declarações, apenas aquele recado para o cafajeste que ele vinha sendo. Tinha o cheiro dela ainda, sua caligrafia e suas marcas. As marcas que ele a havia feito.
Por um momento pensou seriamente em queimar tudo aquilo. E depois se afogar no vaso com a cara na merda. Mas ele não teria coragem, não era tão ridículo assim. Era mais escroto do que podia agüentar, mas chegaria a tal ponto?
Ele sabia que não. Por curiosidade, aquela que matou o gato, resolveu ler tudo aquilo do começo ao fim; de cabo a rabo. E chorou, como há tempos não fazia. Como não o fez em seu casamento. Ele sabia que havia salvado vidas mas nunca tinha visto uma delas assim tão exposta. Nunca havia tocado as feridas tão de perto. E sentia-se leve. Como se seu corpo já não mais existisse e apenas uma linha tênue de culpa e orgulho o prendesse à Terra. Terra aquela que girava sem parar um segundo sequer, que o girava para longe daquela menina. Aquela menina de quem ele salvou a vida e a destruíra tantas vezes.
Passaram-se mais uns dias. Ele a vira novamente, ele via fúria nela, fúria nele. Fúria no quê eles não tinham e ainda assim jogavam fora. Fúria pelas noites que ele estava perdendo com uma desconhecida que fazia mais sentido pra si do que aquela que dormia ao seu lado. Ele não dormia, não comia, não sorria. Ela estava sugando sua vida sem ele sequer saber sua cor predileta.
Ele largou para trás a caixa, iria finalmente desprender-se daquela sanguessuga. Seus companheiros não gostaram nem um pouco da idéia, o ignorando completamente. Seu melhor amigo o xingou de certos nomes que ele nunca esperaria ouvir; mas sabia que eles tinham toda a razão. Ele realmente era tudo aquilo, mas não podia simplesmente deixá-la levar a única coisa que ainda lhe restava - seus pensamentos.
Tremia; não esperava que ela descobrisse. Quando a viu entregando a caixa para seu subordinado sentiu a Terra girar novamente. E logo eles estavam ali, frente a frente. Ela o encarava jazendo no mesmo nível, sem medo algum. Ele não a intimidava mais, a garota havia crescido. De certa forma estava orgulhoso, mas não podia deixá-la ir. Queria que ela ficasse assim, exatamente assim. Que ela morresse exatamente como estava; o desejando como ninguém jamais o fez. O desejando mesmo conhecendo suas piores faces, mesmo sabendo o quão podre ele era por dentro. O desejando mesmo sabendo que aquilo não lhe trazia nada além de dor.
Dor. Há muito ele não sabia o quê isso significava. E logo ela estava ali; com cabelos coloridos e roupas estranhas, dor havia ganhado toda uma nova roupagem, uma nova fantasia. E parecia tão mais interessante agora.
Aproximou-se dela, que sorria com o loiro, o olhando com tal carinho e ternura que talvez ele nunca receberia novamente, ao menos não dela. Aproximou-se e tentou travar uma conversa, mas ela simplesmente parecia não ouvi-lo. Ela estava a salvo agora e ele não podia machucá-la nem uma vez sequer. Ele era um fantasma.
Mais alguns dias se passaram e aquelas palavras continuavam a assombrá-lo. Como ela podia se achar feia?! Estava feliz agora que chegou até aqui? O quê ela iria fazer? Ele berrava alto segurando sua aliança e tentando pensar em quem o amava, a quem ele pertencia, e não naquela criança que mal acabara de sair da infância e já o atormentava. E então ela apareceu. "Meu Deus", esbravejou. "Ela está por todos os lugares". Não havia mais saída, ela iria segui-lo por onde quer que ele fosse. E ele não podia evitar mas simplesmente amar o fato de que ela sempre estaria ali para protegê-lo, mesmo sendo ela a criança, e não ele.
Seu coração saltava toda vez que a olhava. Ela estava linda ali, livre. Feliz. Eles estavam em casa. Saiu do palco e pediu para que a procurassem. Ouviu um não como resposta; não, ela não podia ficar. Ela tinha de ir para casa. Ela tinha uma vida e ele não fazia parte dela, não é mesmo? Seguiu para a mesma cama fria de seu hotel de luxo. Quase havia cometido um dos maiores erros da sua vida, ou não. Revirou-se nela. Leu e releu o caderno. Rasgou as tão odiadas folhas e tudo que conseguiu fazer foi guardá-las dentro de seu próprio caderno. Não, ele não conseguia livrar-se dela.
Um novo dia chegou e nada do sorriso daquela menina. Nem uma palavra de ódio, nem nada. Vira suas amigas mas nada da presença dela. Estava sem fome mas sentia-se fraco e sabia que tinha de comer algo. Pegou um pouco de comida e sentou sozinho, afastado de todas aquelas pessoas desconhecidas e sem se importar com as meninas que o assistiam pelo vidro. Mastigava pesadamente e tentava engolir aquela comida estranha, nova. Sabores nunca experimentados antes; nunca experimentados antes até ela entrar em sua vida... e desaparecer. Olhou para seu copo, para seu guardanapo. Olhava as pessoas ao seu redor. Ele tinha tudo e não possuía nada.
Não tirara seus óculos escuros desde então. Seus olhos verde oliva pareciam ainda mais verdes, destacando-se da brancura e da vermelhidão de sua face inchada. Não fazia a barba há dias, não colocava uma roupa limpa há tempos. Agora era hora de deixar aquele país e também aquela vida; aquela menina.
Pensara seriamente em deixar a caixa e as lembranças para trás, mas ao tentar fazê-lo sentiu uma parte de si morrer. Uma grande parte que até então estava adormecida. Guardou-a em sua mala, entre as roupas que nunca usara. Esconderia em casa onde sua mulher jamais poderia encontrar o amor que jamais poderia lhe dar.
Logo ele faria trinta e um anos e não havia mais saída alguma, ele estava fardado a terminar seus dias com uma outra pessoa. Mas enquanto seus olhos pudessem recordar-se dos dela, ele jamais sofreria novamente. Ele jamais se sentiria sozinho outra vez. E quando sua vida se esgotasse num véu de balas, seriam os dela que ele encontraria.
"Eu não sei se te amo, eu não sei o quê acontece comigo. Acho que o quê sinto por você é só amizade, coisa de irmãs como eu dizia antes, sabe? Aí fico sem falar com você e me dá esse aperto no peito; só de pensar em te perder sinto que perco um pedaço de mim. São nesses momentos que eu sinto que gosto um pouco de você. É mais que amizade, mas não sei se é amor.
Sometimes I feel like I'm scratchin' way too hard and my skin will all come off.
Eu queria tanto saber escrever palavras tão lindas quanto você, saber fazer dessa vida um romance onde apenas você e eu existiríamos. E até o fim de tudo, enquanto a neve cai gelada desse céu direto em nossas cabeças, eu te juro, meu amor... Nada além de nós existiria.
Você brilha como o cordão de pérolas da vovó. É um brilho tão bonito, uma cor assim tão pura... que eu tenho medo de sujar. Seus olhos brilham mais que os meus jamais conseguirão e às vezes eu tapo meu rosto, tentando esconder o quão vermelha eu posso ficar quando você me olha como um irmão olharia. Mas minhas mãos tremem e então você nota que eu não estou bem. Você sempre nota. Só você, sempre você.
E então você cai. E hoje suas asas parecem mais sujas que o normal, e você me devolve a sua metade quebrada. Mas hoje eu não quero consertá-la, então lhe entrego a cola e a devolvo, agora ainda mais rachada. E então você me olha como se eu tivesse o machucado mais do que pensei, mas eu pensei demais nisso. É, eu premeditei. Você salva minha face da vergonha e eu bato na tua pois é assim que as coisas são.
Eu te amo tanto que até me assusta. Mas é limpo, isso é limpo mesmo no meio de tanta sujeira, de tanta intriga. Amigo, se você pudesse ouvir o quê eu canto pra mim mesma de madrugada então você entenderia. E me abraçaria. E eu juro que não há perigo em me manter dentro dos teus braços, juro que não vou te machucar. Até mesmo porque não posso te trair, só você está aqui. Só você, sempre você.
Olho pra frente e você queima mais do que eu posso suportar. Eu te assisto quebrando mais rápido que meus olhos míopes podem acompanhar. Mas eu agüento, eu preciso ser teu sustento pois você é o meu. Eles só conseguem o quê você dá e você dá demais. Não dê aquela sua metade inteira, pois eles ainda sabem como o quebrar. E então você volta, você não me deixaria sozinha. Você está derretendo e sentindo frio, mas você não me deixaria sozinha. E então você me toca e tudo parece mais fácil. Eu só tenho dezesseis e isso parece mentira, mas eu não estou perdida. Eu seguro forte sua metade inteira e a guardo dentro do bolso do meu casaco rosa choque, mas eu nunca pensei que ele poderia estar furado. E nós dois trememos, há algo de errado hoje. Eu não estou perdida e você não está sorrindo. Você ainda não me cumprimentou como deveria e hoje seus olhos não brilham como brilharam ontem. E durante toda a semana e esse mês. Você cresceu, você é um adulto agora, mas eu não posso deixá-lo ir embora.
Nós trememos mas eu continuo segurando forte sua metade inteira, agora em minhas mãos. Você me olha e estende a metade quebrada, quase implorando para que eu a consertasse. E eu estendo minhas mãos tão pequenas... E sua metade inteira cai. E quebra. E faz um som insuportável e eu quase desejo ter nascido surda, mas eu sei que logo em seguida me arrependeria por nunca ter te ouvido cantar nesse seu tom tão semitonado. E ela cai e se quebra em cinco mil pedacinhos tão pequeninos que nem mesmo Deus poderia juntá-los, pensamos. E você não me vê, você continua olhando através de mim, os olhos opacos e vazios; você queimando e derretendo. E eu agora segurando sua metade quebrada e tentando colar a outra. Estou de joelhos e você diz para eu desistir, me tranquilizar e aceitar o quê nem Deus pode consertar. Sua voz está mais afinada hoje, mais grave. Sua voz está mais triste hoje, e hoje parece aquele dia em que eu achei que fosse morrer. Morrer junto contigo e sem me arrepender de largar o cordão de pérolas da vovó.
Estou de joelhos e você ali derretendo de frio e ninguém vê. Ninguém nunca vê. Eles não conseguem ouvir seu timbre mudando ou perceber seus olhos congelando. Só eu reconheço seus dramas. Eles não percebem quando eu choro em silêncio ou quando meu estômago parece esmagar meu coração endurecido. Só você, sempre você.
E hoje você parece sem cor, hoje a vida está em branco e preto. E você parece mais distante de mim do que o branco jamais esteve do preto. Eu busco suas mãos e você parece ter medo de me infectar de hipocrisia. Mas eu morreria por você, amigo. Para te manter vivo e limpo, te manter brilhando e inocente. E eu morreria apenas para te ver sorrindo com aquele brilho nos olhos que doença nenhuma jamais tiraria. Mas só por você. Só você, sempre você.
Hoje eu lhe escrevi tudo isto nesse papel de pão com essa caligrafia confusa pela urgência apenas para te dizer que eu o consertei, e agora, por favor, volte a sorrir novamente. Eu guardei sua metade quebrada e rachada comigo, ela está quente e me mantendo viva. E eu gastei toda esta minha vida de joelhos catando seus pedaços. Eu consertei o quê nem Deus poderia, só por você. Só você, sempre você.
Hoje é o aniversário de uma das pessoas mais importantes no meu mundo e eu não posso estar perto dela para fazer desse dia o melhor de todos e isso dói demais, mais do que eu queria que doesse. Hoje foi talvez o primeiro passo pro meu sonho, e eu não estou bem. Eu sinto que eu perdi meu chão há um certo tempo e que venho rastejando no de um outro alguém.
Gosto de dias chuvosos. Aqueles de chuvas densas que encharcam a calçada onde você escorrega em cada esquina e cai de cara na lama. E tentar pular as poças é colocar o remédio na boca e não o engolir. É querer escapar do inevitável e ter de abraçar o irremediável logo a frente.
Verdade seja dita, eu sou mesmo masoquista. Viciada, de alguma forma bizarra, a engolir cada centímetro de podridão que há a minha volta. A saber que sou doente e que por isso não preciso entender o outro lado, já que eu sei que é o meu que está perdendo.
A minha doença é ter o ombro amigo mas não possuir a cabeça para encostar, as lágrimas para derramar. É ter a lâmina e a necessidade, mas faltar lugar no corpo para cortar. É querer se ajustar ao inajustável que é o tamanho 34. Ser pequena demais para a minha mente e grande demais para o meu corpo. É desconfiar confiando sempre. É sorrir com os olhos inchados, para não morder meus membros até arrancar pedaços grossos.
É deitar com cada face da minha sanidade, despida de toda a necessidade, insanidade e insensatez que eu puder desperdiçar. É sentir prazer em ver sofrer quem mais ama... você.
É ter cinco dedos. Abri-los. Fechá-los. Abri-los; abri-los. Quebrá-los. Calos nas pontas de quatro. É cutucar a ferida aberta até encontrar algum botão que acione a verdade; que nada mais do que não prestar. Eu não presto dentro da minha bondade. Sou suja dentro da minha própria pureza. E eu não sei como me desculpar por isso. Então eu pulo nos seios de quem me esconde; chuto o ventre de quem compra.
A minha doença tem companhia e agora esta jaze sozinha. Eu devo e nego e pago; por mim, você e quem mais aparecer. Pois a imagem que eu mais amo bancar é a de ''Jesus'' injustiçado.
Ser vilipendiada pode ser bonito e se for incompreendida é ainda mais divertido, mas ser feliz pode ser perigoso demais. Pode ser ir longe demais, se dar demais. Pode ser demais.
Eu adoeço por tentar ser humana e me ajustar. Ao aceitar o diagnóstico das três doses diárias que me mantêm longe da janela.
A minha doença é ser você, amanhã ele e depois uma boa menina. É me negar em aceitação do que melhor a roupa vestir. É mentir verdades que se contadas de trás para frente escondem o que eu melhor cuido. É polir minhas vergonhas até que elas brilhem tanto quanto meu orgulho e te ceguem em meio a tantas incertezas garantidas.
É não saber diferenciar as vermelhas das azuis na acidez do álcool e pílulas no estômago.
É ser profissional em mentir e falhar em receber. É ser hipócrita enquanto verdadeira.
É vestir a camisa e ir à luta por uma causa já tão esquecida e fora de moda.
É querer viver sem existir. Errar sem sentir e acertar sem conseguir. É ser... É...
Copyright © 2009 This Sandwich Has No Mayonnaise, Powered by Blogger
CSS designed by Mohd Huzairy from MentariWorks
Blogger Templates created by Deluxe Templates