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domingo, 23 de janeiro de 2011
Nas frestas da hora exata
E assim, sempre meio que a perseguindo, meio que lá no fundo querendo fugir dela e sim procurando por só um pouquinho de atenção ou um abraço ou um agrado qualquer, chegou o dia. O dia em que ele, coitado, tão frágil e leve tal qual um anjo ou uma pena ou uma esperança qualquer, ele viu que poderia ir. Poderia ir e sem deixar muito por aqui; tristeza, saudade ou qualquer coceira dentro de um outro alguém. Mas para um, aquele um, esse um que é eu, pois veja bem que merda, ele queimaria um todo a cada cigarro fumado no desespero, a cada dose empurrada para dentro apenas para ser jogada para fora na manhã por vir. Frágil feito a esperança de que algo assim tão deles pudesse, quem sabe, um dia realmente vir a dar certo para sempre e ser como nos filmes que assistiam juntos, nas canções que deixavam rolar altas entre um cigarro e uma trepada e um e outra; só sair daquelas expectativas tão adoradas, ele soube. Ele sentia, certeza. Até mais nada daquilo e nem dele deixar de ser.
Tão parado e calmo, quieto como nunca e ainda mais leve, meu Deus, por dias ele ficou. Silencioso, a respiração falha e pesada, cada fôlego como um novo esforço maior que as tragadas antes tão sagradas, assim não acredito que ele não tenha sentido ela por perto. Mesmo calado, adormecido ou quase ido, não acredito que não tenha pensado a todo segundo "Pois é, meu Deus, fudeu. Agora eu vou". Ele podia não falar, mas certeza eu tinha de que ouvia. E no silêncio branco preenchendo e sobrevoando aquele quarto gelado, eu bem sabia que em sua cabeça neurônios mastigavam a notícia, o desfecho já escrito com quase a data e local decididos. Ele sabia que iria, ele sabia.
Mas ele sempre procurou por isso, não é o que diziam? Não é o que ele mesmo dizia? As noites vividas, os zilhares de maços e corpos e bagulhos e pintos e vaginas e a porra toda que viria no meio, por cima, por trás, entre dedos ou línguas e entranhas. Amores, desamores, ressacas, bad trips, corações partidos e remendados, pregas perdidas, enfim. Tudo aquilo, seu mundo. Tudo aquilo só não mais ido que ele.
Ele, esse anjo tão frágil e pequeno e translúcido; mal compreendido, quase não amado e tão idolatrado. Ele, esse ele, meu Deus, meu tudo e o tudo de todos e o nada de mais alguns e tanta coisa e ainda assim coisa alguma. Ele, meu Deus, e ele? E se ele tiver indo? E nunca mais eu ouvi-lo vindo, nunca mais existir um voltando? Um telefone tocando e aquela voz tão gostosa e nervosa, tremida e rouca pelos tantos cigarros que agora eu me pergunto, "será que ele ainda os terá?". Meu anjo não muito organizado e domado ou bem montado seria sem aqueles vinte. E muito menos com capa, com plástico separando dois corpos para impedir o livre trânsito das almas, não é o que ele dizia? E sem tudo, sem festa, sem eira nem beira? Santo que não do pau oco? E agora? Não haveria mais aquela voz me cantando "vem logo, meu caro, vem que já estou a te esperar com café e braços." E lábios, e dores, cicatrizes e segredos adoecidos, tudo junto. O corpo inteiro e todas as ziguiziras. E se mais nada disso eu tivesse?
Mas a morte, essa companheira constante, a única certeza que tenho na vida, aquela que anda de mãos dadas com a maior das incertezas de quatro letras, pois é, ela resolveu ir passear. E me dar um pouco mais do meu anjo, agora ainda mais frágil e translúcido mas sempre tão lindo. Meu anjo em breve estaria vindo, pois é. Daquela voz e braços e tudo o mais eu ainda teria... até não mais o ter.
E ele, aquele que eu julgava conhecer do avesso mais que conheço meus filmes e músicas favoritos, ele já não era mais aquilo. Já não era mais nada. Era uma folha em branco, molhada, prestes a se desmanchar. E eu, meu Deus, sempre tão afoito e afobado e grosseiro, eu o rasgaria em um simples abraço. Eu e meu cheiro de cigarro, da vida que ainda levava, agora ainda mais desesperada, eu com meu cheiro e essência de eu. Eu o rasgaria, meu Deus.
Distância, distância. Mas eu deveria mostrar apoio, não é mesmo? Parecia tudo agora uma corrida contra o tempo; uma corrida injusta, não dava para trapacear com ele assim tão aos trapos. Era tempo de correr e mostrar o que era amor, "mas amor não, é proibido. Você não precisa selar teu suicídio assim, rapaz", mas amor sim. Mais amor sim.
E então o vi, ali, tão incerto e perdido de si mesmo quanto eu e minhas lembranças poderíamos estar. Sentamos os dois, cada um em sem mundinho, em seu próprio espaço. Sentamos os dois e o ouvi, cada medo novo, cada dúvida e as inseguranças e tudo aquilo que o mantinham perfeito, ainda que todo novo e em branco, ainda que tão outro. Mas aqueles olhos não mudavam, nem a voz já não mais tão rouca pela falta de nicotina que tanto o desesperava. Ouvi-o e permanecemos ali, quietos e barulhentos, certos da incerteza de que seria cada novo passo. E eu permaneceria ali a cada droga pesada e carne que se enfraquecesse, mesmo que o nunca mais viesse para o amor. E tentou vir.
Nunca mais as peraltices, nunca mais os pênaltis a pagar, os cigarros a fumar, as noites a trepar. Nunca mais, nunca mais. Nunca mais o meu amor de pecador a sujar suas novas asas de anjo, nunca mais. Mas eu permaneceria ali, meus olhos cansados mereciam assistir àquele milagre. Das cinzas nunca mais jogadas despretenciosamente da ponta de uma bala, dali renasceria aquele; aquele que seria sempre meu, o meu aquele. Sem capas, sem distâncias, sem nojos ou receios. Meu, para todo o sempre... meu.
E os dias vieram e as mudanças passaram e as inseguranças novamente vestiram outras vestes e os dias se foram e eu permaneci ali. Eu, com a minha voz rouca de nicotina, apenas para ligar para ele e implorar "anda, meu anjo, vem logo. Vem logo que eu 'tô te esperando e cansado de rezar. Anda, se apressa, meu caro. Vem que a nossa hora vai passar e é a minha que está a chegar."
(inspirado livre e loucamente nas minhas viagens sobre a descoberta de CF de sua doença e o anjo que ele deve ter tido, aquele moreno de quem ele tanto falou Depois de agosto).
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
brilhante - clarissa
Que quase me cega, é. De certo. Eu estava tão sozinha aqui no meu canto por todo esse tempo que você passou longe que talvez tentar te buscar de volta, te ter de volta, poderia me salvar e me carregar até lá. Não importava para onde, entendes? Só algum lugar onde eu me sentisse em casa, um alguém quem eu tivesse orgulho de dizer quem sou.
É que eu estava tão cansada. De tentar, de amar e de nada receber de volta. Nenhum pagamento, nenhum afago, nenhuma forma verdadeira de afeto. Só aquelas mesmas em fila indiana que poderiam ter as mesmas caras e curvas e cores que eu nem perceberia alguma diferença. E eu sei que eu deveria ter percebido antes, em toda a sua frieza, o que poderia ter sido meu. Mas sou tola, Clarisse. Só aprendo no erro.
Mas alguém lá em cima deve ser muito meu amigo para te botar novamente ao meu alcance. Eu sabia que você não teria mudado tanto, eu contava com isso. Algo de mim ainda devia restar no canto de algum lugar teu, debaixo do chão, atrás de memórias melhores, eu não sei. Mas alguma coisa haveria de ter.
E errada eu não estava, você nunca me esqueceu. E a hora é essa; a minha única chance de viver os filmes hollywoodianos que sempre procurei. Mas nada me parece certo, ainda, então devo sofrer por você. Por cada vez que ouço sua voz trocar um amor por um Clarissa, frio e contido.
Nada me parece certo, ainda, você nem me preencheu. Mas é tudo que eu tenho, um pouquinho mais perto do que eu preciso ver. É por isso que eu tento, vida, construir alguma coisa verdadeira dentro desse gelo teu.
Mas talvez você nunca tenha me amado de verdade, talvez eu nunca tenha te alcançado. Mas é que eu só queria ser você, Clarisse. Me perdoe se um dia deixei parecer que queria te ter.
terça-feira, 19 de outubro de 2010
no dope, no hope - clarisse
Então chegou mesmo a sexta e enrolei o máximo que pude; procrastinei. Procrastinar é uma das palavras que mais gosto. Procrastinei. O tempo seguiu e esperei, esperei novamente. Fumei e fumei várias vezes mas não me acalmei, nada nunca me acalma, muito menos ultimamente. Outra conversa, mas dessa vez nem um pouco importante, na verdade não me importei nem um pouco mas precisava matar o tempo e sei que você vai estar sempre ali já que você serve é pra isso. Fumei um pouco mais e finalmente entrei. Entrei e então puxei o primeiro copo. E mais outro, pediram cigarros e me deram; flashes, sorrisos e eu já nem sei mais o quê. Bebi, bebi e me diverti; fugi e mijei. Acho até que me escondi.
E então horas inacabáveis, pessoas malditas, mas ali na frente estava tudo caminhando corretamente. Aqui embaixo, aqui ao meu redor, pessoas amadas, tudo caminhando corretamente nessa nossa estrada torta. Outros encontros, sorrisos, outros cigarros pedidos. E então a hora passou. Passou e esperei novamente; chocolates e nem gosto deles. Vinho, vinho caro e bom e de graça ali, ele ainda não tinha chegado. Flashes, no flashes, só uma confusão e agora de nada sei e amanhã de menos ainda me lembrarei. Ele, ele, confusão, flashes, confusão. Outro não, nego aquilo que desconheço; sempre. Esqueci a porra da bolsa, acho que esqueci quem sou.
Então chegou o outro dia, o sábado, eu acho. Pouca ressaca física apesar da mistura e da falta de comida de antes - por que depois tive larica, bateu o desespero de ter outra porra naquela bebida. Devia ter ouvido alguém, alguém deve ter me avisado. A ressaca era moral por que tenho escrúpulos adoráveis dos quais nunca largo. É. Mas então voltei para o lá - que costumava ser lar - e vi café e lembranças da infância e parques abandonados e talvez eu tenha me sentido em casa novamente, mas voltei lá e me escondi por que bem, tenho medo do desconhecido. Desculpas à fadas e estava tudo certo, lá - que não sentia mesmo como lar - estava eu fugindo e negando novamente.
E mais tarde mais bebida, eu era eu novamente, mas agora existiam outros eu também. Nenhum contato, acho que eu não precisava de você naquela hora, eu ainda tinha os meus cigarros e os meus...
Então o tempo passou, não durmo. Cansei, quero sumir de você por que você é um saco. Mas eles são tão adoráveis, talvez eu devesse dá-los uma chance, foi o que eu decidi. É que eu decidi que não ia mais fugir e ir dormir na vontade. O céu era cinza hoje.
Mas então você pediu pra ficar e eu fiquei, estou tão cansada de tudo que até consegui cochilar. Mas então veio esse dia de terça que mais me parece uma quinta e, meu Deus, ele poderia ser eu; eu não teria problemas em ser ele, eu até gostaria de ser ele. Mas eu não sei, não sei. Acho que se fossêmos um o apocalipse aconteceria. Mas como não acredito no fim do mundo, deixei estar.
Mas já está tão tarde de novo e eu não consigo dormir, apesar do sono. Você veio de novo e, cacete, você cansa. Você e, putaquepariu, todo esse seu circo - nunca vou conseguir chamar isso de meu. Mas aí eu cansei e deitei, achei que talvez pudesse dormir para chegar logo a quarta e depois eu finalmente viver a quinta. Estou ficando com medo da quinta, sabia?
Mas nada dava em porra alguma então eu levantei e saí ligando, acendendo tudo - tv, luz, computador, cigarro, a porra toda. Fui na cozinha buscar umas coisas, mastiguei e cuspi tudo menos o café. Então eu continuei sentindo que algo faltava por ali, peguei o livro e fui fumar.
Então eu estava ali na sala, fumando e lendo e pensando no que diabos eu estava fazendo, quando ele veio com seus olhos desesperados apenas para refletir os meus. Deixei-o vir, me ensinar um pouco o que viria a ser o afeto. Então pensei que não devo ser uma má pessoa, não lá dentro, ou ele não iria vir ao meu encontro toda madrugada que saio para a sala só para fumar e de vez em quando ler, noutras só reclamar, mentalmente e sozinha, de tudo, grande ou pequeno, que de alguma forma me incomoda tanto.
Ouço grunhidos vindos do outro quarto e sons de pés a mexer em chinelos, membros a procurar um caminho seguro no escuro e olho para o relógio - três e caralhadas da manhã -, estou cansada e bocejando e eu deveria conseguir dormir, mas como sempre estou sem sono. E então ela vem, meio perdida e mansa só por que está dopada de sono - and no dope, no hope - e já até posso ouvir sua voz irritante repetir para mim "Clarisse, vai dormir". Nem seis segundos depois e sua boca seca da madrugada de sono que aproveitara - e que eu perdira jogada na cama me perguntando por quê diabos não durmo quando estou tão cansada - mexia-se apenas para cuspir exatamente o que eu previra. Dei de ombros. Foda-se. Como se um maldito dum resmungo fosse me enfeitiçar e me derrubar desacordada em algum canto daquele apartamento.
E então trancou-se no banheiro e dei mais algumas outras tragadas. Pensei novamente naquilo que havia escrito mais cedo, sobre muros e trancas e aquela falsa segurança que erguemos para nos manter longe dos pivetes e dos amantes bisbilhoteiros. Voltei meus olhos para o livro em meu colo enquanto ouvia o pequeno ser - queria chamá-lo de indivíduo mas não sei, acho que não dá. Indivíduo algum poderia gostar de mim a ponto de lamber meus pés - seguia para a porta que dava para o pequeno cubículo que dividia o quarto do banheiro; coitado, esperando, calado, alguma forma de afeto vir dela.
Então ela saiu, voltou para o outro quarto e segui para a cozinha já que o cigarro havia acabado (e o maço estava prestes a tomar o mesmo caminho). Bebi, eu não sei, uns três goles d'água pensando no que iria escrever quando sentasse o rabo aqui de novo, de frente pro computador, onde estou agora. Estou sentada e escrevendo sobre coisa alguma e ainda sem saber o que quero dizer.
Então..
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
espasmos
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Folha a folha até restarem-se apenas os galhos, nus e magros. E com a Vovó foi bem assim, como se um dia eu fosse dormir com ela rechonchudamente alegre e brilhante, e no outro acordasse com ela apagada, oca.
Ela segurava forte o que parecia ser uma carta, suas unhas bem polidas quase rasgando o papel. Parei na porta por um tempo, quase como se também estivesse congelada de dor, se é que eu sabia o que isso significava naquela época. Entrei e sentei-me ao seu lado, puxando a caixa para mim. Vovó segurou meu pulso, me fazendo parar no meio do caminho. Seus olhos brilhavam com lágrimas, fixos no armário com a porta aberta.domingo, 1 de novembro de 2009
le donne hanno perduto la guerra
Mas não, há uma multidão por aqui. Há muito gente querendo sair, implorando para sair e eles precisam de ar, é preciso abrir algum caminho. Mas não, apenas bloqueio com meus canhões e uns poucos pobres soldados, coitados. Meu cotidiano maquinal tanto fez que alcançou seus objetivos – já não mais sinto, apenas máquina sou.
De todos eles, só a Carolina eu não consigo abafar. Logo ela?, eles diriam; pois logo ela.
Então permanecemos caladas. Ela com os olhos nos papéis e eu sem os meus.
Sentada no chão com as pernas abertas, sua coluna está mais arqueada que o normal. A menina, coitada, carrega meu fardo. É o preço de se ter uma voz num quarto tão silencioso.
Mas Carolina não se acanha. E dentre tulipas e baleias, constrói-me uma casa. E a pinta. E me entrega. Uma casa onde ficar, sem precisa se alimentar. Uma casa assim, estreita, pequena, onde uma pessoa assim tão grossa e repugnante como eu não entraria...
E Carolina não come, apenas sorri. Alcança o copo d’água e se alimenta de minhas fábulas. Carolina é minha ídola.
E as horas passam e seu corpo dói, mas ela não pára para pensar; ela não abre a boca. Respira fundo e vai, forte. Minha heroína.
sábado, 10 de outubro de 2009
i've bled and i bleed to please you...
Novos sonhos seriam sonhados, os antigos desperdiçados. Um pronto para ser preenchido enquanto o outro cai esgotado.
E antes da estação mudar, o abraço quente diário se transformou em letras na tela do seu computador; a dor abriu espaço para o esquecimento, logo você, com essa sua mente tão cheia de nada, a oficina perfeita pro diabo, logo você... me entende?
E assim mais de nossos dias se passariam e na próxima tarde cinzenta em que virasse uma daquelas de nossas esquinas, eu te encontraria mas não pararia. Engolimos pólos opostos, ou iguais, não sei, nunca entendi de Física, mas sei que hoje o que você tem repele o que é meu e não adianta tentar, nada mais disso é seu.
E seu cheiro está na fumaça de cada cigarro, seus passos soam pelo quarto, sua risada atrapalha cada momento de silêncio, mas... você, você não; você? Nunca. Você? Já passou. A você? Só resta o adeus.
Boa sorte, sentirei saudades...
terça-feira, 9 de junho de 2009
catch the wheel that breaks the butterfly
terça-feira, 19 de maio de 2009

- "Hoje eu vi uma batida de carro. Foi bonita. Ninguém morreu."
Pausa para tragar.
- "Aconteceu na minha esquina, assim, bem debaixo da minha janela. Ninguém parou pra ver, só eu e ela. Estávamos com sono e tentávamos conversar sobre algo que fizesse sentido ou que tivesse algum conteúdo, em vão. Pois realmente estávamos com um puta sono, você me entende?"
Silêncio.
- "Mas aí então... ouvimos o barulho. Eu não liguei mas ela foi logo correndo pra janela, de curiosa que é. Falou que "Olha, nossa! Uma batida! Vem aqui ver!" e eu tava querendo era fumar, você me entende? Então eu pensei que ia mesmo era levantar e quebrar mais outra regra da minha mãe e fumar aqui no quarto mesmo. Mas aí eu logo desisti porque já, já a velha ia aparecer me dando bronca e eu não ia saber mais o que fazer pra poder fugir e... mas aí então eu vi a batida. Era bonita assim, tinha mulher no meio, né? Mas ninguém morreu. O cara, assim, era um táxi, sabes? Desses amarelos tipo crente que somos Big Apple mas aí tá, era um táxi e o carro de uma outra mulher, que parecia ser bonita, e nesse táxi tinha um passageiro de mochila, que também parecia ser bonito e tudo o mais, e ele saiu mancando, mas mancando sem motivo, você me entende? Por que a batida nem foi tão forte assim! Foi bonita pra cacete e tudo o mais porque foi bem aqui na esquina da Princesa Isabel, cara! Bem ali naquela parte que tem aqueles troços de concreto que mais parecem bancos, bem debaixo do relógio que olha só que coincidência, velho! No relógio mostra o horário, óbvio, e a temperatura. Umas três horas, por aí, não passava disso. E nem tava muito quente não. Mas o quê eu realmente queria te falar sobre esse relógio aí é que nele tem sempre uma propaganda de alguma coisa, sabes? E a propaganda da vez era desse novo filme do Tom Hanks, é. Mais um daquela saga do cara que eu esqueci o nome, até porque os livros dele são uma puta merda, mas enfim, o nome era Anjos e Demônios e aí eu pensei "Nossa, dá um troço legal pra escrever sobre!". 'Tá, mentira. Pensei porra nenhuma. Só lembrei agora que tava te contando isso que tinha essa propaganda desse filme aí no relógio."
Pausa para respirar fundo e tragar novamente.
- "Mas aí acabamos vendo o cara lá mancando e tentando atravessar a rua e ela disse que se fosse ela, o cara de mochila bonito e tudo o mais, ela não pagaria porra de corrida nenhuma e eu só concordei com a cabeça meio assim como quem não se importa o suficiente com a conversa pra abrir a boca mas também se importa o bastante pra não deixar nenhum silêncio tomar o lugar. Aí ela me deu um soquinho no braço e, 'tá, essa parte eu não me lembro muito bem se é verdade não mas deve ter sido bem assim mesmo, sobre o soquinho e tudo o mais, porque ela sempre faz isso! Mas aí então suspiramos e voltamos pros nossos lugares de antes, eu no computador, como sempre, e ela na cama, como sempre, com aquela cara de sono. E aí voltamos a tentar encontrar algum assunto que fizesse sentido o suficiente para nos despertar daquela marola louca de sono e o caralho, mas cara, quando você mais quer fazer sentido é quando você menos consegue, você me entende?"
Silêncio.
Traga novamente.
- "Aí ficamos naquela coisa assim, aqueles assuntos sem sentido, aquelas frases soltas, um gemido aqui, uma reclamação ali e então ficamos lá, meio que paradas no tempo. É nessas horas que eu percebo o quanto ela significa pra mim. Porque sabe, não é com qualquer um que eu consigo ficar assim nessa conversa sem eira nem beira, principalmente quando eu 'tô morrendo de sono e numa puta duma fissura pra fumar. Mas aí eu poderia passar a tarde toda daquele jeito olhando pro teto e a ouvindo reclamar. Mas aí resolvemos passar na minha tia porque ela pode sempre nos tirar do tédio e, caso estivesse assim toda sonolenta também, ela sempre estará fumando unzinho, você me entende? Aí ela fala assim, com aquele jeitinho de quem não sabe nada de porra nenhuma, exatamente o quê a gente precisava escutar. Desde qualquer besteira sobre a posição da Lua no nosso signo ou essas coisas de mantras tipo muxi-muxi ou o que o pó faz com a gente ou o quê ela fazia aos treze anos. E é bem numa dessas baboseiras que ela solta a pérola da vez. E, entre cigarros e conversas sérias e frases soltas e esperanças lançadas, eu passo assim as horas com amendoins e sucos de soja repousados em cima do violão desafinado. É bem legal quando você tem alguém assim que possa te acompanhar até a outra ponta da esquina só porque vocês estão com sono."
Pausa para tentar terminar o cigarro.
- "E nem parece falta de educação, sabes? Assim, ficar caladona do lado dela. Porque ela entende e ela vai tá sempre do meu lado, você me entende? Ela é a minha pessoa, cara! E assim falando esse bando de baboseiras eu me sinto com uns quinze de novo e pronta pra fazer qualquer merda que vá tomar o mundo. E assim, com ela do meu lado e tudo o mais. Só que aí, quando você tá nesse seu mundinho do sono, a hora passa tão rápido que logo eu tinha que descer pra buscar o meu neném na escola. E eu nem tinha reparado que eu já havia crescido tanto, você me entende? Mas eu sei que vou ter sempre aquela esquina pra dobrar com ela, pra voltar pra quem eu era, pra voltar a respirar. Porque é ela, cara. A gente é bem assim, feito uma batida de carro logo na Princesa Isabel. É, a gente é bem assim. Mas aí o tempo teve que passar, né? Ele sempre passa; ele sempre me passa, esse filho da puta. Mas um dia eu pego ele, ok? Ele que me espere."
Silêncio.
Traga pela última vez e apaga o cigarro.
- "Mas aí então... saímos de volta do nosso mundinho pro mundo dos homens, dos grandes. Mas não tem problema não, meu chapa, meu anjo 'tá comigo. E só descemos mesmo porque eu realmente precisava fumar e já, já a gente vai voltar. Ah vai."
quarta-feira, 7 de maio de 2008
Marieta
Quantas pessoas cabem dentro de uma? Se o fardo está muito pesado, onde diabos ela iria largá-lo?
E é guardar e esperar e ver no que vai dar. E cozinhar a mente para chegar até onde eles querem com toda essa carência de Vitamina D em seu organismo, que não vai mudar em nada se continuar alimentando-se de luz azul.
E se Marieta pudesse, eu sei que ela faria. Enforcaria todos eles, de um a um, para não sobrar mais nenhum sequer. Depois correria como se isso pudesse salvar sua vida com as lágrimas secando ao vento, a pele ardendo de tão esticada e seus olhos de tão inchados praticamente sumiriam.
Marieta conta seus sonhos para quem não deveria ouvir. Conta sobre como amaria usufruir de seu direito de ir e vir, mas ninguém acredita. Marieta já está velha demais para alimentar-se de sonhos e nem é bicho pra se sustentar do quê guarda em seu tecido adiposo; talvez seja hora de ingerir alguns alimentos de verdade.
E ela chora e engasga e quase se vomita e pode sentir o cheiro da loucura chegando; e está bem perto, pertíssimo. Mas a menina não está maluca, só um pouco confusa. Caiu no clichê do papo de sanidade financiada e hoje gasta seus dias a escrever linhas mergulhadas na infâmia.
Ainda assim, Marieta é tão eu e nem um pouco você. Não sei onde essa vadia começa, tampouco onde termina. Incrustada entre minhas entranhas, grudada em minhas artérias acaba passeando por minha corrente sangüínea como se fosse veneno meu. E a seringa só acalma, pouco ajuda. Essa paz amiga que vai aos poucos diluindo o quê me mata tão lentamente...
A menina morde a língua e segura as idéias cavalas na mente, e é quando minha avenida abre alas para Marieta. Sempre tão calma, sempre tão alheia. Mas continuo escondida lá no fundo, com os ouvidos grudados na bateria, esperando para explodir logo d'uma vez e ver o quanto restaria de nós duas.
O triste desfile em slow motion, as alegorias caindo e os carros enguiçando. Vejo bonecos perderam a cabeça, os braços em chamas e o povo só acompanha. Passos cegos, Marieta a frente e eu presa em marcha ré fico pra trás. Depois de tantos anos fingindo já não sei como me apresentar, perdi o jeito e os quadris já não balançam mais.
Então entre o "eu" e o "você" fica um vácuo quase que impenetrável e pela primeira vez em muito, lágrimas finalmente tocam meu rosto. Nos encaramos como se fôssemos uma reflexo da outra, sem um fim ou um começo definitivo, demarcado em piloto. Nunca achei tão difícil encarar alguém olho a olho... Sem mentir (Sem Marieta para mentir por mim).
Um silêncio mortal machuca meus tímpanos e o público a corroer seus estômagos pelo suco gástrico causado pelo estresso de esperar por alguma ação, algum golpe. Mas não, eu nunca machucaria aquela que me protege. Minha melhor capa jamais vestida. Mas Marieta não era invencível e aos poucos suas fendas caem, enquanto eu assisto de camarote seu desfalecimento.
Como encarar o mundo sem teus olhos para me esconder? Quantas pessoas cabem dentro de uma, meu Deus? Marieta está caindo lentamente e eu não posso tocá-la, não quero voltar a encarar o mundo como antes. E trocamos papéis, agora sou a capa daquela menina hoje tão assustada.
Me recosto ao parapeito da janela, dois passos e estou lá embaixo. Dois passos e estou sem ela. Mas essa vida que enceno é tua para aproveitar, Marieta. Vá e fuja, menina. Fuja antes que eles também lhe deixem zureta.
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WTF Moment -q: sim, abri os comentários... Mas só pq a Tati pediu. :*
E cadê meus parabéns? (: 17 anos de vida. -n
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sexta-feira, 7 de março de 2008
Revirou-se na cama, não conseguia dormir. Não que ele não estivesse acostumado com as camas frias dos hotéis luxuosos que freqüentava, mas aquela noite estava particularmente... vazia.
Não sorria há um bom tempo; eles não se falavam há um bom tempo. Para dizer a verdade, ele sequer pensava naquela mulher desde que chegara à casa do amigo. E quando aquela garota estranha do cabelo azul o lembrara de sua existência, foi como se uma alavanca tivesse sido acionada dentro de seu estômago e berrava a plenos pulmões: "Você está vivendo uma mentira!".
Revirou-se na cama, não conseguia permanecer acordado. O sono pesava em sua pálpebras mas a dor as mantinha abertas. Não, não era dor; ele tinha tudo. Tinha mais do que qualquer um pudesse querer, e ainda assim faltava tudo nele. Passou o Dia dos Namorados em um vôo atrasado com o melhor amigo. Não fumava há horas. Já nem lembrava mais do gosto da nicotina ou do rosto da sua mulher. A vida estava sendo irônica novamente, e aquela caixa incomodava seus olhos como se estivesse coberta de neon.
Ele finalmente se levantou, abraçando a si mesmo. Já era um homem feito, trinta anos na cara e ainda assim continuava um indefeso. Aproximou-se da mesa, com o laptop e seu café pela metade. Pegou a caixa e sorriu; "ela é estranha", pensou. Abriu e admirou os presentes. Eram criativos e de certo ele não esqueceria de nenhum deles, mas olhá-los aumentava ainda mais o peso em suas costas. Ele sentia culpa, arrependimento por algo que ele nem sequer sabia ter feito. Pegou o caderno e segurou o choro, sentia-se deprimente. Correu as folhas até encontrar a parte reservada para ele. Era fria. Não havia desenhos nem declarações, apenas aquele recado para o cafajeste que ele vinha sendo. Tinha o cheiro dela ainda, sua caligrafia e suas marcas. As marcas que ele a havia feito.
Por um momento pensou seriamente em queimar tudo aquilo. E depois se afogar no vaso com a cara na merda. Mas ele não teria coragem, não era tão ridículo assim. Era mais escroto do que podia agüentar, mas chegaria a tal ponto?
Ele sabia que não. Por curiosidade, aquela que matou o gato, resolveu ler tudo aquilo do começo ao fim; de cabo a rabo. E chorou, como há tempos não fazia. Como não o fez em seu casamento. Ele sabia que havia salvado vidas mas nunca tinha visto uma delas assim tão exposta. Nunca havia tocado as feridas tão de perto. E sentia-se leve. Como se seu corpo já não mais existisse e apenas uma linha tênue de culpa e orgulho o prendesse à Terra. Terra aquela que girava sem parar um segundo sequer, que o girava para longe daquela menina. Aquela menina de quem ele salvou a vida e a destruíra tantas vezes.
Passaram-se mais uns dias. Ele a vira novamente, ele via fúria nela, fúria nele. Fúria no quê eles não tinham e ainda assim jogavam fora. Fúria pelas noites que ele estava perdendo com uma desconhecida que fazia mais sentido pra si do que aquela que dormia ao seu lado. Ele não dormia, não comia, não sorria. Ela estava sugando sua vida sem ele sequer saber sua cor predileta.
Ele largou para trás a caixa, iria finalmente desprender-se daquela sanguessuga. Seus companheiros não gostaram nem um pouco da idéia, o ignorando completamente. Seu melhor amigo o xingou de certos nomes que ele nunca esperaria ouvir; mas sabia que eles tinham toda a razão. Ele realmente era tudo aquilo, mas não podia simplesmente deixá-la levar a única coisa que ainda lhe restava - seus pensamentos.
Tremia; não esperava que ela descobrisse. Quando a viu entregando a caixa para seu subordinado sentiu a Terra girar novamente. E logo eles estavam ali, frente a frente. Ela o encarava jazendo no mesmo nível, sem medo algum. Ele não a intimidava mais, a garota havia crescido. De certa forma estava orgulhoso, mas não podia deixá-la ir. Queria que ela ficasse assim, exatamente assim. Que ela morresse exatamente como estava; o desejando como ninguém jamais o fez. O desejando mesmo conhecendo suas piores faces, mesmo sabendo o quão podre ele era por dentro. O desejando mesmo sabendo que aquilo não lhe trazia nada além de dor.
Dor. Há muito ele não sabia o quê isso significava. E logo ela estava ali; com cabelos coloridos e roupas estranhas, dor havia ganhado toda uma nova roupagem, uma nova fantasia. E parecia tão mais interessante agora.
Aproximou-se dela, que sorria com o loiro, o olhando com tal carinho e ternura que talvez ele nunca receberia novamente, ao menos não dela. Aproximou-se e tentou travar uma conversa, mas ela simplesmente parecia não ouvi-lo. Ela estava a salvo agora e ele não podia machucá-la nem uma vez sequer. Ele era um fantasma.
Mais alguns dias se passaram e aquelas palavras continuavam a assombrá-lo. Como ela podia se achar feia?! Estava feliz agora que chegou até aqui? O quê ela iria fazer? Ele berrava alto segurando sua aliança e tentando pensar em quem o amava, a quem ele pertencia, e não naquela criança que mal acabara de sair da infância e já o atormentava. E então ela apareceu. "Meu Deus", esbravejou. "Ela está por todos os lugares". Não havia mais saída, ela iria segui-lo por onde quer que ele fosse. E ele não podia evitar mas simplesmente amar o fato de que ela sempre estaria ali para protegê-lo, mesmo sendo ela a criança, e não ele.
Seu coração saltava toda vez que a olhava. Ela estava linda ali, livre. Feliz. Eles estavam em casa. Saiu do palco e pediu para que a procurassem. Ouviu um não como resposta; não, ela não podia ficar. Ela tinha de ir para casa. Ela tinha uma vida e ele não fazia parte dela, não é mesmo? Seguiu para a mesma cama fria de seu hotel de luxo. Quase havia cometido um dos maiores erros da sua vida, ou não. Revirou-se nela. Leu e releu o caderno. Rasgou as tão odiadas folhas e tudo que conseguiu fazer foi guardá-las dentro de seu próprio caderno. Não, ele não conseguia livrar-se dela.
Um novo dia chegou e nada do sorriso daquela menina. Nem uma palavra de ódio, nem nada. Vira suas amigas mas nada da presença dela. Estava sem fome mas sentia-se fraco e sabia que tinha de comer algo. Pegou um pouco de comida e sentou sozinho, afastado de todas aquelas pessoas desconhecidas e sem se importar com as meninas que o assistiam pelo vidro. Mastigava pesadamente e tentava engolir aquela comida estranha, nova. Sabores nunca experimentados antes; nunca experimentados antes até ela entrar em sua vida... e desaparecer. Olhou para seu copo, para seu guardanapo. Olhava as pessoas ao seu redor. Ele tinha tudo e não possuía nada.
Não tirara seus óculos escuros desde então. Seus olhos verde oliva pareciam ainda mais verdes, destacando-se da brancura e da vermelhidão de sua face inchada. Não fazia a barba há dias, não colocava uma roupa limpa há tempos. Agora era hora de deixar aquele país e também aquela vida; aquela menina.
Pensara seriamente em deixar a caixa e as lembranças para trás, mas ao tentar fazê-lo sentiu uma parte de si morrer. Uma grande parte que até então estava adormecida. Guardou-a em sua mala, entre as roupas que nunca usara. Esconderia em casa onde sua mulher jamais poderia encontrar o amor que jamais poderia lhe dar.
Logo ele faria trinta e um anos e não havia mais saída alguma, ele estava fardado a terminar seus dias com uma outra pessoa. Mas enquanto seus olhos pudessem recordar-se dos dela, ele jamais sofreria novamente. Ele jamais se sentiria sozinho outra vez. E quando sua vida se esgotasse num véu de balas, seriam os dela que ele encontraria.



