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domingo, 23 de janeiro de 2011

Nas frestas da hora exata

Dizem que sempre sentimos a morte por perto, o que de certa forma realmente faz alguma lógica. Não acredito que ele nunca tenha sentido antes do choque, da notícia e das respostas, assim como não acredito que não sejam todos nós que sinta a maldita por perto a cada novo dia que abrimos os olhos; a cada novo dia que temos a menos na contagem final. Ela está sempre ali e ele sempre soube, procurou; espalhava aos sete ventos e mares e tantos mais que queria era apressar seu encontro e que o resto pudesse ir para o inferno. Eu, apesar da tempestade que sou, sempre quieto fiquei, apenas assistindo, sorrindo, negando e perdoando.

E assim, sempre meio que a perseguindo, meio que lá no fundo querendo fugir dela e sim procurando por só um pouquinho de atenção ou um abraço ou um agrado qualquer, chegou o dia. O dia em que ele, coitado, tão frágil e leve tal qual um anjo ou uma pena ou uma esperança qualquer, ele viu que poderia ir. Poderia ir e sem deixar muito por aqui; tristeza, saudade ou qualquer coceira dentro de um outro alguém. Mas para um, aquele um, esse um que é eu, pois veja bem que merda, ele queimaria um todo a cada cigarro fumado no desespero, a cada dose empurrada para dentro apenas para ser jogada para fora na manhã por vir. Frágil feito a esperança de que algo assim tão deles pudesse, quem sabe, um dia realmente vir a dar certo para sempre e ser como nos filmes que assistiam juntos, nas canções que deixavam rolar altas entre um cigarro e uma trepada e um e outra; só sair daquelas expectativas tão adoradas, ele soube. Ele sentia, certeza. Até mais nada daquilo e nem dele deixar de ser.

Tão parado e calmo, quieto como nunca e ainda mais leve, meu Deus, por dias ele ficou. Silencioso, a respiração falha e pesada, cada fôlego como um novo esforço maior que as tragadas antes tão sagradas, assim não acredito que ele não tenha sentido ela por perto. Mesmo calado, adormecido ou quase ido, não acredito que não tenha pensado a todo segundo "Pois é, meu Deus, fudeu. Agora eu vou". Ele podia não falar, mas certeza eu tinha de que ouvia. E no silêncio branco preenchendo e sobrevoando aquele quarto gelado, eu bem sabia que em sua cabeça neurônios mastigavam a notícia, o desfecho já escrito com quase a data e local decididos. Ele sabia que iria, ele sabia.

Mas ele sempre procurou por isso, não é o que diziam? Não é o que ele mesmo dizia? As noites vividas, os zilhares de maços e corpos e bagulhos e pintos e vaginas e a porra toda que viria no meio, por cima, por trás, entre dedos ou línguas e entranhas. Amores, desamores, ressacas, bad trips, corações partidos e remendados, pregas perdidas, enfim. Tudo aquilo, seu mundo. Tudo aquilo só não mais ido que ele.

Ele, esse anjo tão frágil e pequeno e translúcido; mal compreendido, quase não amado e tão idolatrado. Ele, esse ele, meu Deus, meu tudo e o tudo de todos e o nada de mais alguns e tanta coisa e ainda assim coisa alguma. Ele, meu Deus, e ele? E se ele tiver indo? E nunca mais eu ouvi-lo vindo, nunca mais existir um voltando? Um telefone tocando e aquela voz tão gostosa e nervosa, tremida e rouca pelos tantos cigarros que agora eu me pergunto, "será que ele ainda os terá?". Meu anjo não muito organizado e domado ou bem montado seria sem aqueles vinte. E muito menos com capa, com plástico separando dois corpos para impedir o livre trânsito das almas, não é o que ele dizia? E sem tudo, sem festa, sem eira nem beira? Santo que não do pau oco? E agora? Não haveria mais aquela voz me cantando "vem logo, meu caro, vem que já estou a te esperar com café e braços." E lábios, e dores, cicatrizes e segredos adoecidos, tudo junto. O corpo inteiro e todas as ziguiziras. E se mais nada disso eu tivesse?

Mas a morte, essa companheira constante, a única certeza que tenho na vida, aquela que anda de mãos dadas com a maior das incertezas de quatro letras, pois é, ela resolveu ir passear. E me dar um pouco mais do meu anjo, agora ainda mais frágil e translúcido mas sempre tão lindo. Meu anjo em breve estaria vindo, pois é. Daquela voz e braços e tudo o mais eu ainda teria... até não mais o ter.

E ele, aquele que eu julgava conhecer do avesso mais que conheço meus filmes e músicas favoritos, ele já não era mais aquilo. Já não era mais nada. Era uma folha em branco, molhada, prestes a se desmanchar. E eu, meu Deus, sempre tão afoito e afobado e grosseiro, eu o rasgaria em um simples abraço. Eu e meu cheiro de cigarro, da vida que ainda levava, agora ainda mais desesperada, eu com meu cheiro e essência de eu. Eu o rasgaria, meu Deus.

Distância, distância. Mas eu deveria mostrar apoio, não é mesmo? Parecia tudo agora uma corrida contra o tempo; uma corrida injusta, não dava para trapacear com ele assim tão aos trapos. Era tempo de correr e mostrar o que era amor, "mas amor não, é proibido. Você não precisa selar teu suicídio assim, rapaz", mas amor sim. Mais amor sim.

E então o vi, ali, tão incerto e perdido de si mesmo quanto eu e minhas lembranças poderíamos estar. Sentamos os dois, cada um em sem mundinho, em seu próprio espaço. Sentamos os dois e o ouvi, cada medo novo, cada dúvida e as inseguranças e tudo aquilo que o mantinham perfeito, ainda que todo novo e em branco, ainda que tão outro. Mas aqueles olhos não mudavam, nem a voz já não mais tão rouca pela falta de nicotina que tanto o desesperava. Ouvi-o e permanecemos ali, quietos e barulhentos, certos da incerteza de que seria cada novo passo. E eu permaneceria ali a cada droga pesada e carne que se enfraquecesse, mesmo que o nunca mais viesse para o amor. E tentou vir.

Nunca mais as peraltices, nunca mais os pênaltis a pagar, os cigarros a fumar, as noites a trepar. Nunca mais, nunca mais. Nunca mais o meu amor de pecador a sujar suas novas asas de anjo, nunca mais. Mas eu permaneceria ali, meus olhos cansados mereciam assistir àquele milagre. Das cinzas nunca mais jogadas despretenciosamente da ponta de uma bala, dali renasceria aquele; aquele que seria sempre meu, o meu aquele. Sem capas, sem distâncias, sem nojos ou receios. Meu, para todo o sempre... meu.

E os dias vieram e as mudanças passaram e as inseguranças novamente vestiram outras vestes e os dias se foram e eu permaneci ali. Eu, com a minha voz rouca de nicotina, apenas para ligar para ele e implorar "anda, meu anjo, vem logo. Vem logo que eu 'tô te esperando e cansado de rezar. Anda, se apressa, meu caro. Vem que a nossa hora vai passar e é a minha que está a chegar."

(inspirado livre e loucamente nas minhas viagens sobre a descoberta de CF de sua doença e o anjo que ele deve ter tido, aquele moreno de quem ele tanto falou Depois de agosto).

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

brilhante - clarissa

Eu queria ser como você, Clarisse. Sempre tão certas das coisas, nada parece nunca alcançar você. As vezes acho que nunca ninguém conseguiria te machucar. É que você é tão brilhante.

Que quase me cega, é. De certo. Eu estava tão sozinha aqui no meu canto por todo esse tempo que você passou longe que talvez tentar te buscar de volta, te ter de volta, poderia me salvar e me carregar até lá. Não importava para onde, entendes? Só algum lugar onde eu me sentisse em casa, um alguém quem eu tivesse orgulho de dizer quem sou.

É que eu estava tão cansada. De tentar, de amar e de nada receber de volta. Nenhum pagamento, nenhum afago, nenhuma forma verdadeira de afeto. Só aquelas mesmas em fila indiana que poderiam ter as mesmas caras e curvas e cores que eu nem perceberia alguma diferença. E eu sei que eu deveria ter percebido antes, em toda a sua frieza, o que poderia ter sido meu. Mas sou tola, Clarisse. Só aprendo no erro.

Mas alguém lá em cima deve ser muito meu amigo para te botar novamente ao meu alcance. Eu sabia que você não teria mudado tanto, eu contava com isso. Algo de mim ainda devia restar no canto de algum lugar teu, debaixo do chão, atrás de memórias melhores, eu não sei. Mas alguma coisa haveria de ter.

E errada eu não estava, você nunca me esqueceu. E a hora é essa; a minha única chance de viver os filmes hollywoodianos que sempre procurei. Mas nada me parece certo, ainda, então devo sofrer por você. Por cada vez que ouço sua voz trocar um amor por um Clarissa, frio e contido.

Nada me parece certo, ainda, você nem me preencheu. Mas é tudo que eu tenho, um pouquinho mais perto do que eu preciso ver. É por isso que eu tento, vida, construir alguma coisa verdadeira dentro desse gelo teu.

Mas talvez você nunca tenha me amado de verdade, talvez eu nunca tenha te alcançado. Mas é que eu só queria ser você, Clarisse. Me perdoe se um dia deixei parecer que queria te ter.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

no dope, no hope - clarisse

O tempo está passando tão devagar ou tão rápido, já nem sei mais, que ainda é uma terça feira e eu sinto como se estivesse, não sei, na quinta. Tudo começou naquela maldita quinta passada, eu não sei, parece que meu chão sumiu e levou junto com ele toda e qualquer noção que já tive da realidade e do tempo que esta leva para passar e nos arrancar certas coisas. Fui lá, para aquele lugar que acostumei a chamar de lar - mas que agora é só um lá, como todos os outros -; encontrei-o, neguei-o. E então veio o dia seguinte e esperei, não lembro o que fiz, não sei bem o que pensei. Só sei que de quinta para sexta eu não dormi por alguma razão e agora, eu não sei, acho que até lembro de alguma coisa. Alguma conversa importante, alguma coisa; mas era feriado e nos feriados nada importam.

Então chegou mesmo a sexta e enrolei o máximo que pude; procrastinei. Procrastinar é uma das palavras que mais gosto. Procrastinei. O tempo seguiu e esperei, esperei novamente. Fumei e fumei várias vezes mas não me acalmei, nada nunca me acalma, muito menos ultimamente. Outra conversa, mas dessa vez nem um pouco importante, na verdade não me importei nem um pouco mas precisava matar o tempo e sei que você vai estar sempre ali já que você serve é pra isso. Fumei um pouco mais e finalmente entrei. Entrei e então puxei o primeiro copo. E mais outro, pediram cigarros e me deram; flashes, sorrisos e eu já nem sei mais o quê. Bebi, bebi e me diverti; fugi e mijei. Acho até que me escondi.

E então horas inacabáveis, pessoas malditas, mas ali na frente estava tudo caminhando corretamente. Aqui embaixo, aqui ao meu redor, pessoas amadas, tudo caminhando corretamente nessa nossa estrada torta. Outros encontros, sorrisos, outros cigarros pedidos. E então a hora passou. Passou e esperei novamente; chocolates e nem gosto deles. Vinho, vinho caro e bom e de graça ali, ele ainda não tinha chegado. Flashes, no flashes, só uma confusão e agora de nada sei e amanhã de menos ainda me lembrarei. Ele, ele, confusão, flashes, confusão. Outro não, nego aquilo que desconheço; sempre. Esqueci a porra da bolsa, acho que esqueci quem sou.

Então chegou o outro dia, o sábado, eu acho. Pouca ressaca física apesar da mistura e da falta de comida de antes - por que depois tive larica, bateu o desespero de ter outra porra naquela bebida. Devia ter ouvido alguém, alguém deve ter me avisado. A ressaca era moral por que tenho escrúpulos adoráveis dos quais nunca largo. É. Mas então voltei para o lá - que costumava ser lar - e vi café e lembranças da infância e parques abandonados e talvez eu tenha me sentido em casa novamente, mas voltei lá e me escondi por que bem, tenho medo do desconhecido. Desculpas à fadas e estava tudo certo, lá - que não sentia mesmo como lar - estava eu fugindo e negando novamente.

E mais tarde mais bebida, eu era eu novamente, mas agora existiam outros eu também. Nenhum contato, acho que eu não precisava de você naquela hora, eu ainda tinha os meus cigarros e os meus...

Então o tempo passou, não durmo. Cansei, quero sumir de você por que você é um saco. Mas eles são tão adoráveis, talvez eu devesse dá-los uma chance, foi o que eu decidi. É que eu decidi que não ia mais fugir e ir dormir na vontade. O céu era cinza hoje.

Mas então você pediu pra ficar e eu fiquei, estou tão cansada de tudo que até consegui cochilar. Mas então veio esse dia de terça que mais me parece uma quinta e, meu Deus, ele poderia ser eu; eu não teria problemas em ser ele, eu até gostaria de ser ele. Mas eu não sei, não sei. Acho que se fossêmos um o apocalipse aconteceria. Mas como não acredito no fim do mundo, deixei estar.

Mas já está tão tarde de novo e eu não consigo dormir, apesar do sono. Você veio de novo e, cacete, você cansa. Você e, putaquepariu, todo esse seu circo - nunca vou conseguir chamar isso de meu. Mas aí eu cansei e deitei, achei que talvez pudesse dormir para chegar logo a quarta e depois eu finalmente viver a quinta. Estou ficando com medo da quinta, sabia?

Mas nada dava em porra alguma então eu levantei e saí ligando, acendendo tudo - tv, luz, computador, cigarro, a porra toda. Fui na cozinha buscar umas coisas, mastiguei e cuspi tudo menos o café. Então eu continuei sentindo que algo faltava por ali, peguei o livro e fui fumar.

Então eu estava ali na sala, fumando e lendo e pensando no que diabos eu estava fazendo, quando ele veio com seus olhos desesperados apenas para refletir os meus. Deixei-o vir, me ensinar um pouco o que viria a ser o afeto. Então pensei que não devo ser uma má pessoa, não lá dentro, ou ele não iria vir ao meu encontro toda madrugada que saio para a sala só para fumar e de vez em quando ler, noutras só reclamar, mentalmente e sozinha, de tudo, grande ou pequeno, que de alguma forma me incomoda tanto.

Ouço grunhidos vindos do outro quarto e sons de pés a mexer em chinelos, membros a procurar um caminho seguro no escuro e olho para o relógio - três e caralhadas da manhã -, estou cansada e bocejando e eu deveria conseguir dormir, mas como sempre estou sem sono. E então ela vem, meio perdida e mansa só por que está dopada de sono - and no dope, no hope - e já até posso ouvir sua voz irritante repetir para mim "Clarisse, vai dormir". Nem seis segundos depois e sua boca seca da madrugada de sono que aproveitara - e que eu perdira jogada na cama me perguntando por quê diabos não durmo quando estou tão cansada - mexia-se apenas para cuspir exatamente o que eu previra. Dei de ombros. Foda-se. Como se um maldito dum resmungo fosse me enfeitiçar e me derrubar desacordada em algum canto daquele apartamento.

E então trancou-se no banheiro e dei mais algumas outras tragadas. Pensei novamente naquilo que havia escrito mais cedo, sobre muros e trancas e aquela falsa segurança que erguemos para nos manter longe dos pivetes e dos amantes bisbilhoteiros. Voltei meus olhos para o livro em meu colo enquanto ouvia o pequeno ser - queria chamá-lo de indivíduo mas não sei, acho que não dá. Indivíduo algum poderia gostar de mim a ponto de lamber meus pés - seguia para a porta que dava para o pequeno cubículo que dividia o quarto do banheiro; coitado, esperando, calado, alguma forma de afeto vir dela.

Então ela saiu, voltou para o outro quarto e segui para a cozinha já que o cigarro havia acabado (e o maço estava prestes a tomar o mesmo caminho). Bebi, eu não sei, uns três goles d'água pensando no que iria escrever quando sentasse o rabo aqui de novo, de frente pro computador, onde estou agora. Estou sentada e escrevendo sobre coisa alguma e ainda sem saber o que quero dizer.

Então..

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

espasmos

    E então o sinal se pôs vermelho; parou na avenida chuvosa de Botafogo. As luzes frias da orla não se misturavam com as luzes quentes, com aquele sinônimo tão conhecido de “amor” e “família” do shopping agora natalino, tal qual óleo e água. Papais Noéis emagrecidos pela crise carregavam nas costas seus sacos já não mais tão cheios enquanto rostos cansados voltavam do trabalho, seguindo a coreografia. Era só mais um outro final de dia.
Ligou o som, desligou o som. O sinal abriu, correu, outro sinal fechou. O curto caminho do trabalho pra casa sempre esticava quando era sexta-feira, com aqueles infelizes sortudos atravessando a ponte para mais um final de semana feliz na casa de praia. `Tá aí algo que ela nunca entendeu – casas de veraneio para moradores da Avenida Atlântica; todos branquelos até que se toque o sino.
    Assisti Manuela brigar com o controle da garagem para, depois de alguns palavrões, finalmente entrar. Vi-la deixar o cigarro de filtro vermelho cair no tapete do carro, assim como a vi se abaixando com cara de dor para o pegar. O hábito de se estressar com um trabalho sedentário e de pular refeições para rechear-se de cigarro e café a tornaram fina, quase tão transparente quanto sua presença a olhos nus; a corpos diluídos.
    Subiu afobada as escadas de casa, desviou de algumas baratas, combinou consigo mesma de dedetizar a casa (mas não esse mês, a conta de telefone veio alta de novo. Talvez fosse hora de acabar com os trotes por um tempo...), enfim, entrou em casa sem bater. Para alguém assim, entrar em casa sem bater é o alarme da solidão (mesmo que para alguém assado seja a prova da independência...); para essa ''pessoinha'', independência havia se tornado ilhamento.
    Entrou chutando o salto e acendendo outro cigarro. As vezes me pergunto o quê causa à Manuela tanto estranhamento em sua capa de ser humano. Ela não é feia, se é que você me entende... ela só não é... ela (ou ele, ou o quê seja). Penso até mesmo que se fosse para categorizar a menina em alguma espécie, ela seria uma outra, uma nova. Nem a nem b, um x. Ou melhor, um x não, um x não porque todo mundo é x entre quatro paredes, ela seria um ∏, mas um desses sem valor, sem raiz quadrada.
De qualquer forma, lá ela estava jogada, no meio da sala, fumando feito uma puta de esquina, com as pernas abertas feito bailarina, a mente vazia enquanto a fumaça tomava conta do pequeno quadrado de seu conjugado.
    Os minutos dançavam lentamente, sem nunca sair do compasso, embalando a fumaça nessa valsa constante, tal qual oxigênio. Inspirava, expirava, piscava; existia. “O quê você faz da vida?” “Qual o seu nome?” “O que você pretende fazer quando 'w' acabar?” “O quê...” “Como...” Moveu os dedos dos pés, alongou as pernas, atrofiou-se. “Quem é você?” E assim mais um ato se acabava, a mão alcançava o isqueiro e logo todos voltavam das pequena pausa para apreciar um outro, fresco, inédito ato de inalar e exalar mais de 4.500 substâncias prejudiciais à saúde.
    É difícil dizer o que se passa na cabeça de alguém quando o assistimos fumar, assim tão compenetrado. É difícil dizer o que se passa na cabeça de alguém que passa por nós com cara de cu. É difícil dizer o que se passa na cabeça de quem senta ao seu lado oito horas por dia, de quem te pariu, de quem dorme em sua cama... mas uma coisa é certa, nada é.



















                                                                                 chega

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009


Foi em 13 de Outubro de 83. Eram suas bodas de rubi. A Terra girava certa como sempre e ironicamente era Primavera quando vi Vovó mudar. Ela secou num piscar de olhos, como planta que a gente deixa de regar só porque se esqueceu de onde diabos deixou o regador e suas folhas vão secando pouco a pouco, do verde para o amarelo, até caírem duras, secas, mortas.
Folha a folha até restarem-se apenas os galhos, nus e magros. E com a Vovó foi bem assim, como se um dia eu fosse dormir com ela rechonchudamente alegre e brilhante, e no outro acordasse com ela apagada, oca.
Eu tinha lá pelos meus nove anos, com meu vestido azul rodado e os cabelos amarrados, quando atendi ao pedido de mamãe e fui chamar a Vó Nena para partir o bolo e tirar mais um bocado de fotos. Corri pelo corredor repleto de fotografias dela com o Vô Velho, com a fome me apressando e fui logo enfiando a cara pela porta entreaberta.
Vó Nena estava sentada na cama, parada com a cara congelada de dor. Em seu colo estava uma pequena caixa de sapatos entupida de papéis e outras coisas.
Ela segurava forte o que parecia ser uma carta, suas unhas bem polidas quase rasgando o papel. Parei na porta por um tempo, quase como se também estivesse congelada de dor, se é que eu sabia o que isso significava naquela época. Entrei e sentei-me ao seu lado, puxando a caixa para mim. Vovó segurou meu pulso, me fazendo parar no meio do caminho. Seus olhos brilhavam com lágrimas, fixos no armário com a porta aberta.
“Eu estava procurando os brincos que seu avô me deu em nosso primeiro aniversário de casamento. Eu não me lembrava bem onde eles estavam, mas sabia que havia os guardado até hoje, por aqui, em alguma caixa. Não sei por que, mas senti que talvez devesse procurar na parte dele do armário... estúpida idéia, não é mesmo, meu docinho?” Ela se virou para mim e eu apenas confirmei com a cabeça, fazendo minhas tranças balançarem, acompanhando a primeira lágrima gorda que rolava por seu rosto. “Todos esses anos e eu nunca toquei em nada dele, respeitei seu espaço, honrei com minha parte do trato. E hoje, logo hoje, meu maldito destino me prega esta peça... o destino é algo muito azedo, sabia, querida? É, é azedo sim, não há desculpas. Se não lhe azeda na entrada, com certeza o fará na saída.”
Olhei para a caixa e vi a foto do Vô Velho ainda moço, com uma mulher ao seu lado. Bonita, ela parecia ter vindo ‘dum’ daqueles filmes ou da televisão, tão diferente da Vó... ela não tinha jeito de vó, não tinha jeito de mãe e eu nunca tinha visto uma mulher assim, ao menos não tão de “perto”. Hoje eu sei que ela tinha jeito de mulher, de mulher que a gente não encontra dentro de casa. Pensei que talvez ela fosse uma tia minha ou coisa que o valha, mas vovó não me deixou perguntar, apenas me abraçou forte, com seus cabelos loiros e bem penteados se esfregando em meu rosto, com seu cheiro de massa de bolo. Até hoje, nessa fatídica tarde de Agosto, me lembro da vovó quando alguém assa um bolo. Cheiro de casa.
De qualquer forma, vovó apenas me abraçou e me prometeu que um dia, quando eu estivesse mais velha e não fosse mais menina, mas sim uma mulher feita, um dia eu entenderia. Mas que agora era hora de guardar a caixinha especial e esquecer a idéia imbecil dos brincos, pois estava na hora de partir o bolo e comemorar o casamento deles. Ela resmungou mais algumas outras coisas sobre casamento, confiança e traição, mas só o que ficou gravado na minha cabeça oca de criança, foi que mulher que era mulher, cheirava a desejo, não a massa de bolo, pois só assim, sendo verdadeiramente mulher, que se é amada.
Não dei muita bola a nada que ela tinha dito, nem mesmo isso, porque toda essa história de amor e mulher e traição não significavam nada para mim quando comparados à Emília ou o Balão Mágico. Então eu só sorri e disse a ela que estava tudo bem chorar, por que eu sabia que era choro de felicidade e que quando é assim, de felicidade, faz bem chorar, por que só lembra a gente do quanto somos felizes. Ela então sorriu para mim, secou as lágrimas com seu lenço e levantou para se ajeitar em frente ao espelho. Dei uma última espiada na caixa em cima da cama e estendi minha mão a ela, e assim passei de volta pelo corredor recheado de memórias em quadros.

Vovó entrou na sala e encarou Vô Velho por um bom tempo, os quatro olhos fixos uns nos outros, como arma mirando num alvo, gelados e pontiagudos. Vovô baixou a cabeça, suspirando enquanto ela dançava pela sala entre os convidados com a mesma desenvoltura de sempre. Finalmente fomos até a mesa no quintal, onde estavam o bolo e todas as outras coisas que não podíamos comer antes do “Parabéns” porque era coisa feia e falta de educação... ou consideração, que seja. Fiquei bem ao lado deles, ansiosa por aquele brigadeiro, tentando tirar uma lasquinha com o dedo ou coisa que o valha. Vi vovó encostar a boca pintada de vermelho na orelha de seu marido e sussurrar “Eu sei de tudo.”. Ele apenas engoliu forte a saliva, fazendo seu pomo de Adão se mexer e assim a festa continuar, sem mais interrupções. Ou talvez eu que simplesmente não tenha notado mais nada depois que caí de cara no brigadeiro que só ela sabia fazer.
E foi a partir dali, assim, que vi Vó Nena secar, pouco a pouco, se esvaziar feito bexiga de festa sem ninguém nunca entender o porquê. Mas os anos se passaram e como já era de se esperar, os dois já se foram e eu cresci sem muito revisitar o quê havia acontecido naquela tarde. Sem muito pensar naquilo até hoje.
E então chegou 16 de Agosto de 2002. Um dia comum, uma tarde qualquer, típica de Rio de Janeiro. Saí cedo do trabalho devido ao enjôo infeliz que não arredava o pé de mim. Era pouco depois da hora do almoço quando passei a chave pela porta, largando minhas coisas pela mesa e seguindo para o quarto. Na pequena mesinha ao lado da cama, achei o celular do meu marido. Diogo era uma verdadeira cabeça de vento que sempre se esquecia de tudo, mas nunca de carregar o celular consigo como se sua vida dependesse de tal coisa. Meu estômago dançou dentro da minha barriga, piorando a náusea que vinha azedando meu dia desde manhã. Estiquei-me até o celular e peguei-o com ligações perdidas e mensagens recebidas. Abri o flip, sentando em nossa cama de casal impecavelmente arrumada. Várias das ligações, todas as mensagens eram de uma Simone. Elas vomitavam paixões e apelidos carinhosos e clichês, com um fogo que nunca havíamos sentido. Pois não, eu não, mulher com o mínimo de respeito não iria me rebaixar a tal nível de abrir meu corpo para tais fantasias, ao menos não em voz alta. Mulher que é mulher de verdade, mulher que se preze, se respeita, não é mesmo?
Que seja! Nada disso fazia diferença agora que meu coração gelou, comigo sentada na cama com a cara congelada de dor. Do nada, não sei por que, lembrei daquela tarde de Outubro na casa da Vovó. Agora eu já não era mais menina, era mulher feita, construída o suficiente para aguentar a chuva de concreto que caía lentamente, mensagem a mensagem, sobre minhas estruturas. Agora eu era grande o bastante para entender. Maldita tarde de calor, maldito forno chamado Rio de Janeiro. Maldita gravidez com todas as suas complicações e enjôos e frescuras. Tudo por que o destino é assim, azedo, e já não era hora de ele vir dar seu toque de limão em minha vida. Naquela tarde típica de Agosto, eu sequei. Engoli forte minha saliva, tentando umedecer as idéias, apertando o maldito aparelho, tentando voltar no tempo e o lembrar de levar o celular, o lembrar de não perder meu regador, de não errar, de não me deixar secar. Mas não, agora era hora de guardar aquela caixinha especial e deixar o destino azedar de vez a minha saída, solar meu bolo.
Mas antes eu deixei ali, na prova do crime, como nota de rodapé na notícia - “eu sei de tudo.” E então nossa porta bateu...

domingo, 1 de novembro de 2009

le donne hanno perduto la guerra

Não escrevo há muito tempo. Já não marco mais outros encontros furtivos, na calada da noite, com o papel e a caneta para mais uma sessão coruja de terapia de choque. Apenas os deveres matinais, onde nem mais reconheço minha cursiva, registrando velozmente o quê deveria calcar minha base forte o suficiente para me transformar em uma boa profissional um dia
Mas não, há uma multidão por aqui. Há muito gente querendo sair, implorando para sair e eles precisam de ar, é preciso abrir algum caminho. Mas não, apenas bloqueio com meus canhões e uns poucos pobres soldados, coitados. Meu cotidiano maquinal tanto fez que alcançou seus objetivos – já não mais sinto, apenas máquina sou.

E dessa multidão amorfa, essa massa de indigentes, sempre me visita Carolina. Ela coça, arranha, cutuca, rasga minhas paredes até que eu abra alguma brecha. Abro caminho para minha bala hipodérmica predileta.
De todos eles, só a Carolina eu não consigo abafar. Logo ela?, eles diriam; pois logo ela.

Carolina passou a madrugada fazendo origami, sentada ao meu lado. Não conversávamos; de descartável já nos bastava a vida. Palavras não são tais como papéis; palavras não são recicláveis. Uma vez postas fora, não há jeito; nada lhes muda a forma, permanecem pontiagudas até o fim.
Então permanecemos caladas. Ela com os olhos nos papéis e eu sem os meus.
Sentada no chão com as pernas abertas, sua coluna está mais arqueada que o normal. A menina, coitada, carrega meu fardo. É o preço de se ter uma voz num quarto tão silencioso.
Mas Carolina não se acanha. E dentre tulipas e baleias, constrói-me uma casa. E a pinta. E me entrega. Uma casa onde ficar, sem precisa se alimentar. Uma casa assim, estreita, pequena, onde uma pessoa assim tão grossa e repugnante como eu não entraria...
E Carolina não come, apenas sorri. Alcança o copo d’água e se alimenta de minhas fábulas. Carolina é minha ídola.
E as horas passam e seu corpo dói, mas ela não pára para pensar; ela não abre a boca. Respira fundo e vai, forte. Minha heroína.

Mas então chega a hora de pôr o lixo fora, e as palavras de alguém alcançam o quarto. E são pontiagudas, gordurosas, com cheiro de salgadinho. E as horas passam, cadê a força? Carolina tropeça nas palavras e corre para a cozinha, seguindo o mapa antigo para o tesouro valioso. E cai. De novo.
E eu permaneço aqui, sem olhos. Não seguirei Carolina, não, não dá. Ainda preciso entrar na casa.

sábado, 10 de outubro de 2009

i've bled and i bleed to please you...


E eles iriam se encontrar ocasionalmente pelas ruas de Botafogo, fingindo sorrisos, distribuindo afagos, compartilhando cigarros; e eles iriam tentar conversar, tentar doar uns minutos de seu dia para quem costumava lhe significar a vida.
Mas então as gargantas secariam, as palavras sumiriam; os motivos se desfariam no ar frio e parado daquele lugar supostamente tropical.
E mais dias se passariam; mais a distância aumentaria, os cheiros se apagariam, as memórias se esvaziariam e a vida seguiria.
Novos amigos viriam, amores inéditos estreariam nas novas noites de sextas e o gosto da pipoca não lhe pareceria mais tão insosso; é a vida.
Um comeria desesperadamente, o outro aprenderia a passar fome. Um estragaria seus pulmões, o outro aprenderia a beber sem procurar um motivo pra sorrir; é essa a vida?
E eles iriam trocar mensagens, desejos de boa sorte, notificações de saudade. E eles iriam tentar, tentar pelos velhos tempos; tentar porque é o que se resta a fazer quando não se quer ficar.
Mas então tudo seria em vão, quando aceitar e aprender a nadar na nova maré é tão mais difícil que cravar as unhas na areia movediça de outrem.
E mais noites nasceriam; menos a tristeza apareceria e o álcool diluiria tudo que fosse sólido demais para ficar.
Novos sonhos seriam sonhados, os antigos desperdiçados. Um pronto para ser preenchido enquanto o outro cai esgotado.

E então eles se encontrariam, nus e secos pelas ruas hoje tão molhadas de Botafogo, nem tentariam fingir sorrisos. Se abraçariam sem vontade, se tocariam sem afeto; é sempre assim que se acabam as parcerias? Combinariam sessões de filmes inteligentes, sair para beber, qualquer coisa que evitasse o diálogo, o confronto. E combinariam, e cobrariam, e combinariam novamente, sem nunca sair, até um deles desistir, e o outro acolher o melhor que estava por vir.
E antes da estação mudar, o abraço quente diário se transformou em letras na tela do seu computador; a dor abriu espaço para o esquecimento, logo você, com essa sua mente tão cheia de nada, a oficina perfeita pro diabo, logo você... me entende?



E antes que eu pudesse evitar, você já tinha ido. Antes mesmo de eu notar, disso eu já havia esquecido. Antes que eu pudesse me importar, já havíamos crescido; o outono chegou e eu até sei para onde você tem ido... apenas não quero te seguir pra lá.
E assim mais de nossos dias se passariam e na próxima tarde cinzenta em que virasse uma daquelas de nossas esquinas, eu te encontraria mas não pararia. Engolimos pólos opostos, ou iguais, não sei, nunca entendi de Física, mas sei que hoje o que você tem repele o que é meu e não adianta tentar, nada mais disso é seu.



E antes que eu pudesse me envergonhar disso, minha boca assume. Como um orgão que é mutilado e se regenera, com o tempo o espaço que era teu fora preenchido. E o que veio, foi. O que foi, em breve vai ser esquecido, pode sorrir, não está entre meus planos viver a te perseguir.
E seu cheiro está na fumaça de cada cigarro, seus passos soam pelo quarto, sua risada atrapalha cada momento de silêncio, mas... você, você não; você? Nunca. Você? Já passou. A você? Só resta o adeus.



Boa sorte, sentirei saudades...

terça-feira, 9 de junho de 2009

catch the wheel that breaks the butterfly

O lugar era frio, sempre; não importa se o relógio-termômetro marcava dezessete ou trinta e cinco graus, era sempre frio. Aquele frio mais gelado, do tipo que atravessa sua pele até alcançar o que ela esconde, macia e carinhosa, protetora. E hoje fazia frio, a pele gelava e ressecava como a árvore da idade ou coisa que o valha. A idade pesava, as idéias esvaiam-se e tudo caía naquilo que se era conhecido. Talvez fosse o cheiro do fumo com melado comprado em vão, guardado na mesinha de cabeceiras, que conferia ao quadrado de concreto um certo ar de plantação de maçãs, um pouquinho do campo na cidade nesse verão inventado.
O lugar era frio, vazio; branco. Quase que um caixão de três por seis. O cheiro era doce, era mesmo, quase como o freezer da sorveteria da Nossa Senhora. O quarto cheirava a morangos e champagne e cigarros de creme e pecados e maçãs importadas direto do Iraque em forma de fumo e sexo e vergonhas... E nada era dito, mesmo com o tanto que era pensado. Nada era vivido, sempre seguindo o que fora ensaiado por nossos pais há anos atrás. Mas o que é meu, é seu, menos a cruz que cada um carrega, meu irmão. Menos os erros que cometemos ou os pecados que temos que pagar. Mas o morango do meu champagne, isso você bebe. Mas a lepra da minha carne você não degusta não. E assim seguimos, entrando e saindo, daquele lugar vazio cheirando a menininhas recém-chegadas à maioridade.
O lugar era frio, vazio, branco e cheirava à lembranças escondidas num caixão de três por seis. A dor era tanta que se podia até abraçá-la, tentando aquietar a criança faminta de todos nós. Era a transição, a primeira menstruação, a primeira dor, o rompimento, a vergonha e o arrependimento. Era o quarto de amadurecimento, o destino final à matéria passada da validade. Mas a esperança era tanta que só se podia fugir, fugir dela, de você, de mim, até a criança faminta rugir de novo e voltarmos à tudo que era conhecido.
E não se tinha mais certeza, as dúvidas estavam fora de circulação e o que era verde virou azul, o que era vivo virou azul, o que era meu se perdeu e o que era seu se juntou aos nós, desatando cada entranha.
E a virgem cheirava à sexo; a intocada, manchada pela sujeira de mãos desconhecidas e desesperadas. Como um mapa marcando a rota até o lugar onde a razão descansa em paz e desinibida, é fácil. Seguir os pontilhados e chegar ao tesouro, trazer pra conta bancária e gastar com as meninas da esquina, é fácil. Suspirar com o Sol pesando em A mais B, também é. É como fugir, é instintivo. Assim como se perder na conversa. Já não sei mais por onde comecei ou aonde quero chegar. É só a mesma urgência de sempre de pôr tudo pra fora, de produzir algo que me traga o mínimo de orgulho próprio, de auto-estima. Mas de estimar eu entendo, ah entendo sim. Sempre o número arredondado, a informação mais próxima; nada nunca é certo, nada confirmado, nada é fincado nesse solo de concreto da terra das maçãs. Só o cheiro no vazio da falta daquilo que eu nunca tive. Só o quarto frio, vazio e branco.
Só eu.
Fria, vazia, apagada.
Só eu.
Cheirando à lembranças daquilo que inventei. Inebriada pelos morangos, pelo champagne, pelo cigarro de creme, pelos meus pecados, meus erros, meus antepassados, pelo sexo, pela dor, pela vergonha, pelas dúvidas... por viver.
Só eu.
Na terra das maçãs.

terça-feira, 19 de maio de 2009


- "Hoje eu vi uma batida de carro. Foi bonita. Ninguém morreu."
Pausa para tragar.
- "Aconteceu na minha esquina, assim, bem debaixo da minha janela. Ninguém parou pra ver, só eu e ela. Estávamos com sono e tentávamos conversar sobre algo que fizesse sentido ou que tivesse algum conteúdo, em vão. Pois realmente estávamos com um puta sono, você me entende?"
Silêncio.
- "Mas aí então... ouvimos o barulho. Eu não liguei mas ela foi logo correndo pra janela, de curiosa que é. Falou que "Olha, nossa! Uma batida! Vem aqui ver!" e eu tava querendo era fumar, você me entende? Então eu pensei que ia mesmo era levantar e quebrar mais outra regra da minha mãe e fumar aqui no quarto mesmo. Mas aí eu logo desisti porque já, já a velha ia aparecer me dando bronca e eu não ia saber mais o que fazer pra poder fugir e... mas aí então eu vi a batida. Era bonita assim, tinha mulher no meio, né? Mas ninguém morreu. O cara, assim, era um táxi, sabes? Desses amarelos tipo crente que somos Big Apple mas aí tá, era um táxi e o carro de uma outra mulher, que parecia ser bonita, e nesse táxi tinha um passageiro de mochila, que também parecia ser bonito e tudo o mais, e ele saiu mancando, mas mancando sem motivo, você me entende? Por que a batida nem foi tão forte assim! Foi bonita pra cacete e tudo o mais porque foi bem aqui na esquina da Princesa Isabel, cara! Bem ali naquela parte que tem aqueles troços de concreto que mais parecem bancos, bem debaixo do relógio que olha só que coincidência, velho! No relógio mostra o horário, óbvio, e a temperatura. Umas três horas, por aí, não passava disso. E nem tava muito quente não. Mas o quê eu realmente queria te falar sobre esse relógio aí é que nele tem sempre uma propaganda de alguma coisa, sabes? E a propaganda da vez era desse novo filme do Tom Hanks, é. Mais um daquela saga do cara que eu esqueci o nome, até porque os livros dele são uma puta merda, mas enfim, o nome era Anjos e Demônios e aí eu pensei "Nossa, dá um troço legal pra escrever sobre!". 'Tá, mentira. Pensei porra nenhuma. Só lembrei agora que tava te contando isso que tinha essa propaganda desse filme aí no relógio."
Pausa para respirar fundo e tragar novamente.
- "Mas aí acabamos vendo o cara lá mancando e tentando atravessar a rua e ela disse que se fosse ela, o cara de mochila bonito e tudo o mais, ela não pagaria porra de corrida nenhuma e eu só concordei com a cabeça meio assim como quem não se importa o suficiente com a conversa pra abrir a boca mas também se importa o bastante pra não deixar nenhum silêncio tomar o lugar. Aí ela me deu um soquinho no braço e, 'tá, essa parte eu não me lembro muito bem se é verdade não mas deve ter sido bem assim mesmo, sobre o soquinho e tudo o mais, porque ela sempre faz isso! Mas aí então suspiramos e voltamos pros nossos lugares de antes, eu no computador, como sempre, e ela na cama, como sempre, com aquela cara de sono. E aí voltamos a tentar encontrar algum assunto que fizesse sentido o suficiente para nos despertar daquela marola louca de sono e o caralho, mas cara, quando você mais quer fazer sentido é quando você menos consegue, você me entende?"
Silêncio.
Traga novamente.
- "Aí ficamos naquela coisa assim, aqueles assuntos sem sentido, aquelas frases soltas, um gemido aqui, uma reclamação ali e então ficamos lá, meio que paradas no tempo. É nessas horas que eu percebo o quanto ela significa pra mim. Porque sabe, não é com qualquer um que eu consigo ficar assim nessa conversa sem eira nem beira, principalmente quando eu 'tô morrendo de sono e numa puta duma fissura pra fumar. Mas aí eu poderia passar a tarde toda daquele jeito olhando pro teto e a ouvindo reclamar. Mas aí resolvemos passar na minha tia porque ela pode sempre nos tirar do tédio e, caso estivesse assim toda sonolenta também, ela sempre estará fumando unzinho, você me entende? Aí ela fala assim, com aquele jeitinho de quem não sabe nada de porra nenhuma, exatamente o quê a gente precisava escutar. Desde qualquer besteira sobre a posição da Lua no nosso signo ou essas coisas de mantras tipo muxi-muxi ou o que o pó faz com a gente ou o quê ela fazia aos treze anos. E é bem numa dessas baboseiras que ela solta a pérola da vez. E, entre cigarros e conversas sérias e frases soltas e esperanças lançadas, eu passo assim as horas com amendoins e sucos de soja repousados em cima do violão desafinado. É bem legal quando você tem alguém assim que possa te acompanhar até a outra ponta da esquina só porque vocês estão com sono."
Pausa para tentar terminar o cigarro.
- "E nem parece falta de educação, sabes? Assim, ficar caladona do lado dela. Porque ela entende e ela vai tá sempre do meu lado, você me entende? Ela é a minha pessoa, cara! E assim falando esse bando de baboseiras eu me sinto com uns quinze de novo e pronta pra fazer qualquer merda que vá tomar o mundo. E assim, com ela do meu lado e tudo o mais. Só que aí, quando você tá nesse seu mundinho do sono, a hora passa tão rápido que logo eu tinha que descer pra buscar o meu neném na escola. E eu nem tinha reparado que eu já havia crescido tanto, você me entende? Mas eu sei que vou ter sempre aquela esquina pra dobrar com ela, pra voltar pra quem eu era, pra voltar a respirar. Porque é ela, cara. A gente é bem assim, feito uma batida de carro logo na Princesa Isabel. É, a gente é bem assim. Mas aí o tempo teve que passar, né? Ele sempre passa; ele sempre me passa, esse filho da puta. Mas um dia eu pego ele, ok? Ele que me espere."
Silêncio.
Traga pela última vez e apaga o cigarro.
- "Mas aí então... saímos de volta do nosso mundinho pro mundo dos homens, dos grandes. Mas não tem problema não, meu chapa, meu anjo 'tá comigo. E só descemos mesmo porque eu realmente precisava fumar e já, já a gente vai voltar. Ah vai."

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Marieta


Quantas pessoas cabem dentro de uma? Se o fardo está muito pesado, onde diabos ela iria largá-lo?
E é guardar e esperar e ver no que vai dar. E cozinhar a mente para chegar até onde eles querem com toda essa carência de Vitamina D em seu organismo, que não vai mudar em nada se continuar alimentando-se de luz azul.
E se Marieta pudesse, eu sei que ela faria. Enforcaria todos eles, de um a um, para não sobrar mais nenhum sequer. Depois correria como se isso pudesse salvar sua vida com as lágrimas secando ao vento, a pele ardendo de tão esticada e seus olhos de tão inchados praticamente sumiriam.
Marieta conta seus sonhos para quem não deveria ouvir. Conta sobre como amaria usufruir de seu direito de ir e vir, mas ninguém acredita. Marieta já está velha demais para alimentar-se de sonhos e nem é bicho pra se sustentar do quê guarda em seu tecido adiposo; talvez seja hora de ingerir alguns alimentos de verdade.
E ela chora e engasga e quase se vomita e pode sentir o cheiro da loucura chegando; e está bem perto, pertíssimo. Mas a menina não está maluca, só um pouco confusa. Caiu no clichê do papo de sanidade financiada e hoje gasta seus dias a escrever linhas mergulhadas na infâmia.
Ainda assim, Marieta é tão eu e nem um pouco você. Não sei onde essa vadia começa, tampouco onde termina. Incrustada entre minhas entranhas, grudada em minhas artérias acaba passeando por minha corrente sangüínea como se fosse veneno meu. E a seringa só acalma, pouco ajuda. Essa paz amiga que vai aos poucos diluindo o quê me mata tão lentamente...
A menina morde a língua e segura as idéias cavalas na mente, e é quando minha avenida abre alas para Marieta. Sempre tão calma, sempre tão alheia. Mas continuo escondida lá no fundo, com os ouvidos grudados na bateria, esperando para explodir logo d'uma vez e ver o quanto restaria de nós duas.
O triste desfile em slow motion, as alegorias caindo e os carros enguiçando. Vejo bonecos perderam a cabeça, os braços em chamas e o povo só acompanha. Passos cegos, Marieta a frente e eu presa em marcha ré fico pra trás. Depois de tantos anos fingindo já não sei como me apresentar, perdi o jeito e os quadris já não balançam mais.
Então entre o "eu" e o "você" fica um vácuo quase que impenetrável e pela primeira vez em muito, lágrimas finalmente tocam meu rosto. Nos encaramos como se fôssemos uma reflexo da outra, sem um fim ou um começo definitivo, demarcado em piloto. Nunca achei tão difícil encarar alguém olho a olho... Sem mentir (Sem Marieta para mentir por mim).
Um silêncio mortal machuca meus tímpanos e o público a corroer seus estômagos pelo suco gástrico causado pelo estresso de esperar por alguma ação, algum golpe. Mas não, eu nunca machucaria aquela que me protege. Minha melhor capa jamais vestida. Mas Marieta não era invencível e aos poucos suas fendas caem, enquanto eu assisto de camarote seu desfalecimento.
C
omo encarar o mundo sem teus olhos para me esconder? Quantas pessoas cabem dentro de uma, meu Deus? Marieta está caindo lentamente e eu não posso tocá-la, não quero voltar a encarar o mundo como antes. E trocamos papéis, agora sou a capa daquela menina hoje tão assustada.
Me recosto ao parapeito da janela, dois passos e estou lá embaixo. Dois passos e estou sem ela.
Mas essa vida que enceno é tua para aproveitar, Marieta. Vá e fuja, menina. Fuja antes que eles também lhe deixem zureta.



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WTF Moment -q: sim, abri os comentários... Mas só pq a Tati pediu. :*
E cadê meus parabéns? (: 17 anos de vida. -n

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sexta-feira, 7 de março de 2008

Revirou-se na cama, não conseguia dormir. Não que ele não estivesse acostumado com as camas frias dos hotéis luxuosos que freqüentava, mas aquela noite estava particularmente... vazia.
Não sorria há um bom tempo; eles não se falavam há um bom tempo. Para dizer a verdade, ele sequer pensava naquela mulher desde que chegara à casa do amigo. E quando aquela garota estranha do cabelo azul o lembrara de sua existência, foi como se uma alavanca tivesse sido acionada dentro de seu estômago e berrava a plenos pulmões: "Você está vivendo uma mentira!".
Revirou-se na cama, não conseguia permanecer acordado. O sono pesava em sua pálpebras mas a dor as mantinha abertas. Não, não era dor; ele tinha tudo. Tinha mais do que qualquer um pudesse querer, e ainda assim faltava tudo nele. Passou o Dia dos Namorados em um vôo atrasado com o melhor amigo. Não fumava há horas. Já nem lembrava mais do gosto da nicotina ou do rosto da sua mulher. A vida estava sendo irônica novamente, e aquela caixa incomodava seus olhos como se estivesse coberta de neon.
Ele finalmente se levantou, abraçando a si mesmo. Já era um homem feito, trinta anos na cara e ainda assim continuava um indefeso. Aproximou-se da mesa, com o laptop e seu café pela metade. Pegou a caixa e sorriu; "ela é estranha", pensou. Abriu e admirou os presentes. Eram criativos e de certo ele não esqueceria de nenhum deles, mas olhá-los aumentava ainda mais o peso em suas costas. Ele sentia culpa, arrependimento por algo que ele nem sequer sabia ter feito. Pegou o caderno e segurou o choro, sentia-se deprimente. Correu as folhas até encontrar a parte reservada para ele. Era fria. Não havia desenhos nem declarações, apenas aquele recado para o cafajeste que ele vinha sendo. Tinha o cheiro dela ainda, sua caligrafia e suas marcas. As marcas que ele a havia feito.
Por um momento pensou seriamente em queimar tudo aquilo. E depois se afogar no vaso com a cara na merda. Mas ele não teria coragem, não era tão ridículo assim. Era mais escroto do que podia agüentar, mas chegaria a tal ponto?
Ele sabia que não. Por curiosidade, aquela que matou o gato, resolveu ler tudo aquilo do começo ao fim; de cabo a rabo. E chorou, como há tempos não fazia. Como não o fez em seu casamento. Ele sabia que havia salvado vidas mas nunca tinha visto uma delas assim tão exposta. Nunca havia tocado as feridas tão de perto. E sentia-se leve. Como se seu corpo já não mais existisse e apenas uma linha tênue de culpa e orgulho o prendesse à Terra. Terra aquela que girava sem parar um segundo sequer, que o girava para longe daquela menina. Aquela menina de quem ele salvou a vida e a destruíra tantas vezes.
Passaram-se mais uns dias. Ele a vira novamente, ele via fúria nela, fúria nele. Fúria no quê eles não tinham e ainda assim jogavam fora. Fúria pelas noites que ele estava perdendo com uma desconhecida que fazia mais sentido pra si do que aquela que dormia ao seu lado. Ele não dormia, não comia, não sorria. Ela estava sugando sua vida sem ele sequer saber sua cor predileta.
Ele largou para trás a caixa, iria finalmente desprender-se daquela sanguessuga. Seus companheiros não gostaram nem um pouco da idéia, o ignorando completamente. Seu melhor amigo o xingou de certos nomes que ele nunca esperaria ouvir; mas sabia que eles tinham toda a razão. Ele realmente era tudo aquilo, mas não podia simplesmente deixá-la levar a única coisa que ainda lhe restava - seus pensamentos.
Tremia; não esperava que ela descobrisse. Quando a viu entregando a caixa para seu subordinado sentiu a Terra girar novamente. E logo eles estavam ali, frente a frente. Ela o encarava jazendo no mesmo nível, sem medo algum. Ele não a intimidava mais, a garota havia crescido. De certa forma estava orgulhoso, mas não podia deixá-la ir. Queria que ela ficasse assim, exatamente assim. Que ela morresse exatamente como estava; o desejando como ninguém jamais o fez. O desejando mesmo conhecendo suas piores faces, mesmo sabendo o quão podre ele era por dentro. O desejando mesmo sabendo que aquilo não lhe trazia nada além de dor.
Dor. Há muito ele não sabia o quê isso significava. E logo ela estava ali; com cabelos coloridos e roupas estranhas, dor havia ganhado toda uma nova roupagem, uma nova fantasia. E parecia tão mais interessante agora.
Aproximou-se dela, que sorria com o loiro, o olhando com tal carinho e ternura que talvez ele nunca receberia novamente, ao menos não dela. Aproximou-se e tentou travar uma conversa, mas ela simplesmente parecia não ouvi-lo. Ela estava a salvo agora e ele não podia machucá-la nem uma vez sequer. Ele era um fantasma.
Mais alguns dias se passaram e aquelas palavras continuavam a assombrá-lo. Como ela podia se achar feia?! Estava feliz agora que chegou até aqui? O quê ela iria fazer? Ele berrava alto segurando sua aliança e tentando pensar em quem o amava, a quem ele pertencia, e não naquela criança que mal acabara de sair da infância e já o atormentava. E então ela apareceu. "Meu Deus", esbravejou. "Ela está por todos os lugares". Não havia mais saída, ela iria segui-lo por onde quer que ele fosse. E ele não podia evitar mas simplesmente amar o fato de que ela sempre estaria ali para protegê-lo, mesmo sendo ela a criança, e não ele.
Seu coração saltava toda vez que a olhava. Ela estava linda ali, livre. Feliz. Eles estavam em casa. Saiu do palco e pediu para que a procurassem. Ouviu um não como resposta; não, ela não podia ficar. Ela tinha de ir para casa. Ela tinha uma vida e ele não fazia parte dela, não é mesmo? Seguiu para a mesma cama fria de seu hotel de luxo. Quase havia cometido um dos maiores erros da sua vida, ou não. Revirou-se nela. Leu e releu o caderno. Rasgou as tão odiadas folhas e tudo que conseguiu fazer foi guardá-las dentro de seu próprio caderno. Não, ele não conseguia livrar-se dela.
Um novo dia chegou e nada do sorriso daquela menina. Nem uma palavra de ódio, nem nada. Vira suas amigas mas nada da presença dela. Estava sem fome mas sentia-se fraco e sabia que tinha de comer algo. Pegou um pouco de comida e sentou sozinho, afastado de todas aquelas pessoas desconhecidas e sem se importar com as meninas que o assistiam pelo vidro. Mastigava pesadamente e tentava engolir aquela comida estranha, nova. Sabores nunca experimentados antes; nunca experimentados antes até ela entrar em sua vida... e desaparecer. Olhou para seu copo, para seu guardanapo. Olhava as pessoas ao seu redor. Ele tinha tudo e não possuía nada.
Não tirara seus óculos escuros desde então. Seus olhos verde oliva pareciam ainda mais verdes, destacando-se da brancura e da vermelhidão de sua face inchada. Não fazia a barba há dias, não colocava uma roupa limpa há tempos. Agora era hora de deixar aquele país e também aquela vida; aquela menina.
Pensara seriamente em deixar a caixa e as lembranças para trás, mas ao tentar fazê-lo sentiu uma parte de si morrer. Uma grande parte que até então estava adormecida. Guardou-a em sua mala, entre as roupas que nunca usara. Esconderia em casa onde sua mulher jamais poderia encontrar o amor que jamais poderia lhe dar.

Logo ele faria trinta e um anos e não havia mais saída alguma, ele estava fardado a terminar seus dias com uma outra pessoa. Mas enquanto seus olhos pudessem recordar-se dos dela, ele jamais sofreria novamente. Ele jamais se sentiria sozinho outra vez. E quando sua vida se esgotasse num véu de balas, seriam os dela que ele encontraria.