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Menina bonita, sem rosto e sem nome,
Quantas pessoas cabem dentro de uma? Se o fardo está muito pesado, onde diabos ela iria largá-lo?
E é guardar e esperar e ver no que vai dar. E cozinhar a mente para chegar até onde eles querem com toda essa carência de Vitamina D em seu organismo, que não vai mudar em nada se continuar alimentando-se de luz azul.
E se Marieta pudesse, eu sei que ela faria. Enforcaria todos eles, de um a um, para não sobrar mais nenhum sequer. Depois correria como se isso pudesse salvar sua vida com as lágrimas secando ao vento, a pele ardendo de tão esticada e seus olhos de tão inchados praticamente sumiriam.
Marieta conta seus sonhos para quem não deveria ouvir. Conta sobre como amaria usufruir de seu direito de ir e vir, mas ninguém acredita. Marieta já está velha demais para alimentar-se de sonhos e nem é bicho pra se sustentar do quê guarda em seu tecido adiposo; talvez seja hora de ingerir alguns alimentos de verdade.
E ela chora e engasga e quase se vomita e pode sentir o cheiro da loucura chegando; e está bem perto, pertíssimo. Mas a menina não está maluca, só um pouco confusa. Caiu no clichê do papo de sanidade financiada e hoje gasta seus dias a escrever linhas mergulhadas na infâmia.
Ainda assim, Marieta é tão eu e nem um pouco você. Não sei onde essa vadia começa, tampouco onde termina. Incrustada entre minhas entranhas, grudada em minhas artérias acaba passeando por minha corrente sangüínea como se fosse veneno meu. E a seringa só acalma, pouco ajuda. Essa paz amiga que vai aos poucos diluindo o quê me mata tão lentamente...
A menina morde a língua e segura as idéias cavalas na mente, e é quando minha avenida abre alas para Marieta. Sempre tão calma, sempre tão alheia. Mas continuo escondida lá no fundo, com os ouvidos grudados na bateria, esperando para explodir logo d'uma vez e ver o quanto restaria de nós duas.
O triste desfile em slow motion, as alegorias caindo e os carros enguiçando. Vejo bonecos perderam a cabeça, os braços em chamas e o povo só acompanha. Passos cegos, Marieta a frente e eu presa em marcha ré fico pra trás. Depois de tantos anos fingindo já não sei como me apresentar, perdi o jeito e os quadris já não balançam mais.
Então entre o "eu" e o "você" fica um vácuo quase que impenetrável e pela primeira vez em muito, lágrimas finalmente tocam meu rosto. Nos encaramos como se fôssemos uma reflexo da outra, sem um fim ou um começo definitivo, demarcado em piloto. Nunca achei tão difícil encarar alguém olho a olho... Sem mentir (Sem Marieta para mentir por mim).
Um silêncio mortal machuca meus tímpanos e o público a corroer seus estômagos pelo suco gástrico causado pelo estresso de esperar por alguma ação, algum golpe. Mas não, eu nunca machucaria aquela que me protege. Minha melhor capa jamais vestida. Mas Marieta não era invencível e aos poucos suas fendas caem, enquanto eu assisto de camarote seu desfalecimento.
Como encarar o mundo sem teus olhos para me esconder? Quantas pessoas cabem dentro de uma, meu Deus? Marieta está caindo lentamente e eu não posso tocá-la, não quero voltar a encarar o mundo como antes. E trocamos papéis, agora sou a capa daquela menina hoje tão assustada.
Me recosto ao parapeito da janela, dois passos e estou lá embaixo. Dois passos e estou sem ela. Mas essa vida que enceno é tua para aproveitar, Marieta. Vá e fuja, menina. Fuja antes que eles também lhe deixem zureta.
A conversa estava indo bem até eu derramar as idéias sobre o papel. Toda essa tecnologia vem comendo meu cérebro e cuspindo minha imaginação pro ralo. Meu eu-lírico anda ainda mais sarcástico, afinal de contas, são 17 anos de convivência e já temos intimidade o bastante para que ele me deixe na mão.

Eu quebro o salto e o tamanco voa.
Hoje a pipoca no seu copo da Coca Cola tem gosto de gordura.
Você sabe que está ficando largo e que dispensara a ternura.
Há alguém em teu lugar, mas nem sequer treme a compostura.
Neste jogo tão querido a vida continua sem você assim tão dura.
Joga fora o presente nesses sonhos de dias ensolarados.
Na busca por Califórnia, deixa sua Copacabana de lado.
Injetando cafeína no vácuo que preenche seu passado.
O gosto da noz de cola nunca lhe pareceu tão ultrapassado.
De três em três, de dez em dez eles se vão.
Pulam da tela direto para a palma da sua mão.
Bens digitados que na vida real nunca contarão.
Que do erro persiste a dor da falta de um acerto.
Ele cresce e aprende a perder todo o jeito.
Você ainda sorri quando eles cospem a chama do isqueiro?
Revirou-se na cama, não conseguia dormir. Não que ele não estivesse acostumado com as camas frias dos hotéis luxuosos que freqüentava, mas aquela noite estava particularmente... vazia.
Não sorria há um bom tempo; eles não se falavam há um bom tempo. Para dizer a verdade, ele sequer pensava naquela mulher desde que chegara à casa do amigo. E quando aquela garota estranha do cabelo azul o lembrara de sua existência, foi como se uma alavanca tivesse sido acionada dentro de seu estômago e berrava a plenos pulmões: "Você está vivendo uma mentira!".
Revirou-se na cama, não conseguia permanecer acordado. O sono pesava em sua pálpebras mas a dor as mantinha abertas. Não, não era dor; ele tinha tudo. Tinha mais do que qualquer um pudesse querer, e ainda assim faltava tudo nele. Passou o Dia dos Namorados em um vôo atrasado com o melhor amigo. Não fumava há horas. Já nem lembrava mais do gosto da nicotina ou do rosto da sua mulher. A vida estava sendo irônica novamente, e aquela caixa incomodava seus olhos como se estivesse coberta de neon.
Ele finalmente se levantou, abraçando a si mesmo. Já era um homem feito, trinta anos na cara e ainda assim continuava um indefeso. Aproximou-se da mesa, com o laptop e seu café pela metade. Pegou a caixa e sorriu; "ela é estranha", pensou. Abriu e admirou os presentes. Eram criativos e de certo ele não esqueceria de nenhum deles, mas olhá-los aumentava ainda mais o peso em suas costas. Ele sentia culpa, arrependimento por algo que ele nem sequer sabia ter feito. Pegou o caderno e segurou o choro, sentia-se deprimente. Correu as folhas até encontrar a parte reservada para ele. Era fria. Não havia desenhos nem declarações, apenas aquele recado para o cafajeste que ele vinha sendo. Tinha o cheiro dela ainda, sua caligrafia e suas marcas. As marcas que ele a havia feito.
Por um momento pensou seriamente em queimar tudo aquilo. E depois se afogar no vaso com a cara na merda. Mas ele não teria coragem, não era tão ridículo assim. Era mais escroto do que podia agüentar, mas chegaria a tal ponto?
Ele sabia que não. Por curiosidade, aquela que matou o gato, resolveu ler tudo aquilo do começo ao fim; de cabo a rabo. E chorou, como há tempos não fazia. Como não o fez em seu casamento. Ele sabia que havia salvado vidas mas nunca tinha visto uma delas assim tão exposta. Nunca havia tocado as feridas tão de perto. E sentia-se leve. Como se seu corpo já não mais existisse e apenas uma linha tênue de culpa e orgulho o prendesse à Terra. Terra aquela que girava sem parar um segundo sequer, que o girava para longe daquela menina. Aquela menina de quem ele salvou a vida e a destruíra tantas vezes.
Passaram-se mais uns dias. Ele a vira novamente, ele via fúria nela, fúria nele. Fúria no quê eles não tinham e ainda assim jogavam fora. Fúria pelas noites que ele estava perdendo com uma desconhecida que fazia mais sentido pra si do que aquela que dormia ao seu lado. Ele não dormia, não comia, não sorria. Ela estava sugando sua vida sem ele sequer saber sua cor predileta.
Ele largou para trás a caixa, iria finalmente desprender-se daquela sanguessuga. Seus companheiros não gostaram nem um pouco da idéia, o ignorando completamente. Seu melhor amigo o xingou de certos nomes que ele nunca esperaria ouvir; mas sabia que eles tinham toda a razão. Ele realmente era tudo aquilo, mas não podia simplesmente deixá-la levar a única coisa que ainda lhe restava - seus pensamentos.
Tremia; não esperava que ela descobrisse. Quando a viu entregando a caixa para seu subordinado sentiu a Terra girar novamente. E logo eles estavam ali, frente a frente. Ela o encarava jazendo no mesmo nível, sem medo algum. Ele não a intimidava mais, a garota havia crescido. De certa forma estava orgulhoso, mas não podia deixá-la ir. Queria que ela ficasse assim, exatamente assim. Que ela morresse exatamente como estava; o desejando como ninguém jamais o fez. O desejando mesmo conhecendo suas piores faces, mesmo sabendo o quão podre ele era por dentro. O desejando mesmo sabendo que aquilo não lhe trazia nada além de dor.
Dor. Há muito ele não sabia o quê isso significava. E logo ela estava ali; com cabelos coloridos e roupas estranhas, dor havia ganhado toda uma nova roupagem, uma nova fantasia. E parecia tão mais interessante agora.
Aproximou-se dela, que sorria com o loiro, o olhando com tal carinho e ternura que talvez ele nunca receberia novamente, ao menos não dela. Aproximou-se e tentou travar uma conversa, mas ela simplesmente parecia não ouvi-lo. Ela estava a salvo agora e ele não podia machucá-la nem uma vez sequer. Ele era um fantasma.
Mais alguns dias se passaram e aquelas palavras continuavam a assombrá-lo. Como ela podia se achar feia?! Estava feliz agora que chegou até aqui? O quê ela iria fazer? Ele berrava alto segurando sua aliança e tentando pensar em quem o amava, a quem ele pertencia, e não naquela criança que mal acabara de sair da infância e já o atormentava. E então ela apareceu. "Meu Deus", esbravejou. "Ela está por todos os lugares". Não havia mais saída, ela iria segui-lo por onde quer que ele fosse. E ele não podia evitar mas simplesmente amar o fato de que ela sempre estaria ali para protegê-lo, mesmo sendo ela a criança, e não ele.
Seu coração saltava toda vez que a olhava. Ela estava linda ali, livre. Feliz. Eles estavam em casa. Saiu do palco e pediu para que a procurassem. Ouviu um não como resposta; não, ela não podia ficar. Ela tinha de ir para casa. Ela tinha uma vida e ele não fazia parte dela, não é mesmo? Seguiu para a mesma cama fria de seu hotel de luxo. Quase havia cometido um dos maiores erros da sua vida, ou não. Revirou-se nela. Leu e releu o caderno. Rasgou as tão odiadas folhas e tudo que conseguiu fazer foi guardá-las dentro de seu próprio caderno. Não, ele não conseguia livrar-se dela.
Um novo dia chegou e nada do sorriso daquela menina. Nem uma palavra de ódio, nem nada. Vira suas amigas mas nada da presença dela. Estava sem fome mas sentia-se fraco e sabia que tinha de comer algo. Pegou um pouco de comida e sentou sozinho, afastado de todas aquelas pessoas desconhecidas e sem se importar com as meninas que o assistiam pelo vidro. Mastigava pesadamente e tentava engolir aquela comida estranha, nova. Sabores nunca experimentados antes; nunca experimentados antes até ela entrar em sua vida... e desaparecer. Olhou para seu copo, para seu guardanapo. Olhava as pessoas ao seu redor. Ele tinha tudo e não possuía nada.
Não tirara seus óculos escuros desde então. Seus olhos verde oliva pareciam ainda mais verdes, destacando-se da brancura e da vermelhidão de sua face inchada. Não fazia a barba há dias, não colocava uma roupa limpa há tempos. Agora era hora de deixar aquele país e também aquela vida; aquela menina.
Pensara seriamente em deixar a caixa e as lembranças para trás, mas ao tentar fazê-lo sentiu uma parte de si morrer. Uma grande parte que até então estava adormecida. Guardou-a em sua mala, entre as roupas que nunca usara. Esconderia em casa onde sua mulher jamais poderia encontrar o amor que jamais poderia lhe dar.
Logo ele faria trinta e um anos e não havia mais saída alguma, ele estava fardado a terminar seus dias com uma outra pessoa. Mas enquanto seus olhos pudessem recordar-se dos dela, ele jamais sofreria novamente. Ele jamais se sentiria sozinho outra vez. E quando sua vida se esgotasse num véu de balas, seriam os dela que ele encontraria.
"Eu não sei se te amo, eu não sei o quê acontece comigo. Acho que o quê sinto por você é só amizade, coisa de irmãs como eu dizia antes, sabe? Aí fico sem falar com você e me dá esse aperto no peito; só de pensar em te perder sinto que perco um pedaço de mim. São nesses momentos que eu sinto que gosto um pouco de você. É mais que amizade, mas não sei se é amor.
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